Norte. Meu querido norte!

O teu verdadeiro esplendor não está nas lantejoulas, no samba ou nos foliões mascarados. A tua magia está no corso definido desde o mar, indo pelas encostas acima, guiando o pagode para um desfile onde só era permitido ir mascarado de aventureiro, com as cores da terra molhada que serviam como pintura natural dos galhofeiros do costume.

Um bom desfile sai sempre à hora certa! E assim foi…

Em ritmo acelerado, sem batuques ou pandeiretas, o chocalhar da água nos flasks ritmava esta amostra de povo, que queria entrar nesta festa molhada, que se adivinhava ser dura pela distância, desnível acentuado e pela chuva abundante que caiu durante a semana. Estes foram os ingredientes perfeitos para um desfile de sucesso.

A subida trazia o cheiro da terra molhada, misturado com a sensação de que dentro de algum tempo, esse mesmo caminho, irá traçar o início de uma aventura de maior escala. Oh MIUT, estás aí ao virar da esquina… 

Recordando a época carnavalesca, a famosa “serpentina iluminada” dá luz à descida até à Ribeira da Janela. Sem carros alegóricos e trupes organizadas, eis que começa a primeira grande subida com destino marcado para primeira zona temática do corso: o mundo encantado do Fanal.

Por caminhos reais, entre casas e palheiros, o altímetro subia e a temperatura descia. Os pingos de orvalho tocavam gentilmente o corpo dos destemidos que começavam a entrar na área verde e exuberante, que contrastava com a aurora e o castanho da lama que abundava. A subida íngreme ensinava os passos da ‘dança’, através dos trilhos em ziguezagues compostos por pequenos troncos irregulares que se mostravam pela terra molhada e escorregadia, dificultando as nossas passadas. O nevoeiro trazia o ambiente de mistério ao cenário mágico que define o Fanal nesta época do ano. Os tons de verde eram tantos. A beleza desta subida faz esquecer a sua dureza…

Chá quente, barra, conversas e risos com os voluntários… Siga que está frio!

O corso passava e não havia alma viva a assistir tamanho desfile de gente molhada. Como se não bastasse, com tantas ‘piscinas’ montadas no Fanal, a malta teve de disfarçar-se de Michael Phelps, para não ficar mal vista neste desafio onde não interessava o estilo em que se entrava nas poças e mini lagoas de água gelada. 

Brotando água pelos pés, entre o sítio do Fio e a Vereda do Fanal, lá ia eu, correndo para não arrefecer. Ainda nem estava no primeiro quarto da prova, e já pensava no banho de água quente.

Depois do primeiro quilómetro vertical, veio a descida da Vereda das Voltas. A folia continuava! A descida era rápida e lamacenta, o Spa perfeito para um tratamento natural e alternativo, em plena floresta. Entre pedras grandes e escorregadias, a pouca luminosidade lembrava a escuridão dos bailes da adolescência. Tal como na altura, o “pé-de-chumbo” tentava ir leve com os seus passos de dança pela encosta abaixo. Pelo meio, e com grande simpatia, ‘vesti o fato’ de James Bond ao ajudar duas companheiras dos trilhos, numa parte mais perigosa desta descida. Com um sorriso oiço um agradecimento devido ao “acto de cavalheirismo” que me deixa contente e envergonhado. Depois de tamanho elogio e embalado com a boa disposição, desço em grande velocidade e estilo. A confiança era tanta, que dei uma valente queda, a única na prova! Na hora doeu, mas felizmente não passou disso. 

Depois do excesso de velocidade, entre cursos de água e chegada ao majestoso vale do Chão da Ribeira, entramos no mundo do “Parque Jurássico”, local perfeito para reabastecer e recarregar as energias, rumo ao meu némesis: o temido Lombo Barbinhas. 

Mais longa e mais bonita que a “Marquês da Sapucaí”, a subida do Lombo Barbinhas é um duro desafio, que mexe com qualquer um. O seu desnível acentuado e o início regado com a travessia da ribeira, com água bem gelada, guia-nos à subida com destino às Lameirinhas.

Está na hora de animar o desfile. Mete música, disc-jockey!

Playlist no Spotify e auscultadores no ouvido, começa o início da subida em que quase se anda de gatas! O rock & roll toca, e dá o ritmo. Desta vez ia conseguir ultrapassar o ‘bicho papão’ que me tramou o ano passado com um K.O. à chegada ao posto de abastecimento.

Animado e contente com o meu desempenho na prova, estava cheio de força para subir e chegar bem ao topo. Conforme se sobe a montanha, encontramos quedas de água em sintonia com uma densa floresta Laurissilva, que é gentilmente atravessada pela Levada do Seixal e Levada do Norte. 

Pára tudo! No meio deste “desfile” de beldades toca isto:

“I looked out this morning and the sun was gone
Turned on some music to start my day
I lost myself in a familiar song
I closed my eyes and I slipped away

It’s more than a feeling (more than a feeling)”

A letra da música encaixa perfeitamente. Lama e mais lama, sobe, escorrega e continua a subir! Era  hora de fazer as pazes com o Lombo Barbinhas. Cheguei às Lameirinhas com um enorme sorriso estampado. Com mais um momento divertido no abastecimento, graças aos animados voluntários, rumei para o próximo destino. Numa descida técnica e complicada, para mim a mais difícil da prova, a próxima paragem era o Chão da Ribeira 2. Com muita lama, misturada com folhas e vegetação seca, transformaram o trilho numa pista de patinagem artística. Ainda dizem que o Carnaval tem de ter Samba? 

A meta estava cada vez mais perto, mas antes da descida triunfal ainda tinha de fazer a última grande subida para o Fanal, que continuava fria e com as suas piscinas improvisadas. Depois de mais uns banhos pelos verdes campos, deu-se a chegada ao posto para mais um chá quente.

Finalmente a última descida e a desejada chegada à meta!

A última descida, com muita zonas para rolar, ajudaram a descomprimir para que a chegada à Vila do Porto Moniz fosse feita nas calmas e sem problemas. Depois de atravessar o último túnel, a sensação de dever cumprido estava mais perto. 

Depois da desilusão do ano passado consegui ajustar contas com esta prova, uma das mais duras do país. Obrigado, Porto Moniz. Obrigado, Costa Norte. Muito em breve vou voltar a ser feliz nos teus trilhos!

Por fim ficam os agradecimentos ao Plano D e a Nutricionista Nádia Brazão pelo apoio e dedicação, para que tudo corra bem nestas grandes provas. Obrigado! 

 


Autor

O Runner Anónimo é um blog sobre corridas e histórias pessoais de um desportista amador que vive na ilha da Madeira.

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