O meu MIUT acabou antes de começar. Para mim e para muitos outros. Com as inscrições para a prova esgotadas em 24 horas, a minha única esperança de correr o MIUT, restava numa longa lista de espera para substituir os inscritos desistentes. Mas os dias passavam e com eles aumentava a certeza de que em 2018 ficaria de fora da prova. Afinal de contas, não seria o fim do mundo. O que não faltam são provas para correr. E, em última linha, eu e o MIUT teríamos sempre 2019. Estava conformado. Até ao dia em que, no Facebook, alguém anunciava que tinha uma inscrição disponível. Nem pensei duas vezes. Daí a estar inscrito no MIUT Marathon, não chegaram a passar 24 horas. O meu MIUT tinha acabado de começar.

Muitos quilómetros de treino depois, e ainda mais de desnível positivo, chegava o dia 28 de Abril e a partida para o MIUT Marathon. A estratégia para a corrida era simples. Correr ao meu ritmo, começar lento e acabar forte. Nas assistências, o plano era reabastecer com calma no Chão da Lagoa e em Larano, e não perder muito tempo no Poiso e na Portela. E lá no fundo, bem enterrado no subconsciente, a vontade de completar o percurso em menos de 6 horas. Pensei nisto durante uma semana, escrevi tudo para não me esquecer, tinha o plano perfeito para atacar os 42 quilómetros. E como todos os planos perfeitos, o meu plano acabaria no momento da partida.

Cheguei com tempo de sobra ao Colégio do Infante, mas por lá o ambiente já estava em ebulição. Música aos berros, o speaker a motivar os atletas, a hora da partida aproximava-se rapidamente. No meio de muitos franceses e espanhóis, lá encontrei o meu grupo para a prova – o Roberto, o João e a Sofia. O trail tem destas coisas, não combinámos nada, não assinámos nenhum contrato, simplesmente sabíamos que seria assim. Conhecia bem o ritmo dos três e sabia que era por ali que queria andar. 10 horas e 59 minutos, relógio preparado, fechei os olhos por alguns segundos…vamos a isso!

Para 2018, os organizadores do MIUT reservaram-nos duas surpresas. A primeira eram 550 metros adicionais de desnível positivo em relação a 2017. E para ajudar à festa, estavam todos concentrados na primeira subida até ao Chão da Lagoa. A subida é feita inicialmente em alcatrão e pedra, mudando para terra logo antes de chegarmos ao Pico Alto. Até esse ponto, vim quase sempre a reboque do grupo, mas com a chegada ao Parque Ecológico, e com as pernas mais quentes, apertei um pouco mais até chegar ao posto do Chão da Lagoa. Tinha planeado chegar ali com 1 hora e 30 minutos de prova e rapidamente apercebi-me que iria chegar com 10 minutos de avanço. Seria a euforia desses 10 minutos, que iria pagar bem caro até ao Ribeiro Frio. Sabia de antemão que este posto seria decisivo, especialmente com a eliminação do posto do Ribeiro Frio, e que teria de alimentar-me bem e levar algumas reservas. Não fiz nada disso. Paragem rápida, ao estilo Fórmula 1.

Saí do posto com o João e com o Roberto, pronto para enfrentar a descida mais técnica do percurso. Nem 15 minutos depois, ficava preso num comboio de atletas mais lentos e acabaria por perder o meu grupo original de vista. Este foi o primeiro sinal que algo não estava bem. Comecei a baixar a cabeça e a energia já não era a mesma. Que falta me fazia a comida que tinha deixado no posto. Continuei na descida e acabei por reencontrar o João e lá voltámos a ter a companhia da Sofia. Mas o ponto mais baixo da prova ainda estava por chegar. No novo sector de descida para o Ribeiro Frio, uma escorregadela e uma leve entorse no pé esquerdo. O problema da entorse não é a dor, é a antecipação de que não vamos concluir a prova. E essa antecipação, rouba-nos a concentração, retira-nos por breves momentos do percurso. Resultado: nova escorregadela, desta vez sem entorse mas com direito a mergulho numas urtigas. Agora sim, o MIUT tinha me atirado para o fundo do poço. Aqui não conta o treino, o desnível, nem as pernas, aqui apenas conta a cabeça. A capacidade de reavaliar a situação, de colocar a prova em perspectiva e começar do zero. Foi isso que tentei fazer antes de começar a subir para o Poiso. Comi tudo o que ainda tinha na mochila, até o gel de emergência. Esta subida seria minha. Não havia outra opção. Não parei por uma vez que fosse, sempre para a frente. Até no Chão das Feiteiras, atrevi-me a correr. Sempre num ritmo certo e seguro até ao Poiso. Altura para começar a segunda parte da prova!

Na segunda assistência da prova, não iria cometer o erro da primeira. Comi um pouco de tudo e enchi a mochila com banana e chocolate. Garrafas cheias de água…vamos a isso. Antes de seguir olho para o João e vejo-o agarrado a uma canja. Percebi que já não iria sair dali. Isto significava que teria que chegar à Portela sozinho. Por breves momentos, voltei à linha de partida…correr ao meu ritmo. Foi apenas nisso que pensei até chegar à Portela. Foi a melhor decisão que poderia ter tomado. A prova disso foi que, mais tarde, viria a saber que passei 25 atletas entre o Poiso e a Portela. Esta é, sem dúvida, uma das minhas zonas preferidas da prova. Em pouco mais de uma hora estava no terceiro posto de assistência, decidido a repetir a estratégia do Poiso. Perder tempo a comer, para ganhá-lo em prova.

Para quem nunca fez o MIUT, a ligação entre a Portela e Larano parece a parte mais fácil da prova. Não é! O papel indica-nos um estradão largo e plano no início, seguido de um breve trilho até à descida da Degolada. A realidade é bem diferente. As Funduras são um dos maiores testes psicológicos do MIUT, precisamente porque parece o sítio perfeito para correr. Plano, largo, fácil. O problema é que, para muitos, as Funduras são o primeiro trilho onde se apercebem que correr já não é uma opção. Foi essa revelação que tive em 2015, na primeira vez em que entrei no MIUT. É frustrante. Muito frustrante. Mas em 2018, fiz as pazes com as Funduras. Foi aqui que senti todas as horas de treino a vir ao de cima. Parar de correr nunca me passou pela cabeça. Foi assim que cheguei ao final do estradão e entrei na zona de trilho. Para quem nunca lá esteve, este trilho é uma verdadeira montanha russa, um constante sobe e desce, recheado de raízes expostas e outras armadilhas. Foi neste sector que encontrei o Bruno Freitas. Viemos em amena cavaqueira, ele a explicar que tinha feito os 115 quilómetros no ano passado e eu a pensar que a Degolada aproximava-se a passos largos. Lembro-me perfeitamente da forma como cheguei a este ponto da prova, no ano passado. Sem pernas e sem energia. Até na subida que antecede a Degolada – que não tem mais de 100 metros – parei por duas vezes. Este ano o problema seria outro.

Não é por acaso que este é um dos pontos altos do MIUT. A Degolada é uma descida vertiginosa de 1000 metros, ladeada por um precipício que apenas acaba no mar. A treinar ou em prova, respiro sempre bem fundo antes de me lançar encosta abaixo. Descer a Degolada a passo, mete respeito. Descê-la a correr, mete medo. Naquele dia, comecei e acabei a descida no encalce do Bruno e apenas concentrado em chegar ao final inteiro. Dito e feito. Cheguei inteiro, mas o impacto dos 10 minutos de descida faria notar-se. Começavam as primeiras câimbras nos gémeos e nos quadríceps. Com o final da descida, chegávamos ao último posto de assistência da prova. Lembram-se de ter falado em duas surpresas dos organizadores para 2018? Esta era a segunda. Este ano tinham sido eliminadas duas assistências: o Ribeiro Frio e a Ribeira Seca. E se no Ribeiro Frio estava alerta para compensar no posto anterior, a falta do posto na Ribeira Seca apanhou-me desprevenido. Mas voltemos a Larano.

A primeira pessoa que vejo foi o Roberto. Já não o via desde o Chão da Lagoa e só o voltaria a ver em Machico. Olhei para o relógio e vi que já tinha 5 horas de prova. O objectivo das 6 horas pareceu-me possível. É claro que não era. Para ser possível teria que correr os últimos 12 quilómetros de prova em menos de 1 hora. Se o dia estivesse a começar, uma hora seria suficiente para chegar a Machico, mas o dia já ia longo e chegar à meta, só por si, seria um desafio. Claro que, na altura, Machico parecia logo ali ao virar da esquina e passar o mínimo de tempo na assistência o mais óbvio. Seria um erro que quase deitava tudo a perder. Massagem nos quadríceps, comer rapidamente, garrafas cheias…parti em direcção a Machico.

A primeira parte do percurso fiz a reboque de uma atleta francesa. A rapariga vinha num ritmo mais alto que o meu, mas fiz o esforço para acompanhar o maior tempo possível. “Pass?”, perguntou-me mais vezes do que me possa lembrar. E eu sempre com um envergonhado “No” de quem estava a gostar da boleia, mas não tinha pernas para contribuir para o ritmo. Corremos assim durante algum tempo, até que, numa dobragem de atletas, perdi a minha boleia francesa de vista. Sem problema, a partir daqui seguiria sozinho e ao meu ritmo. Agarro numa das garrafas para beber água e vejo que já está no final. Tranquilo, ainda tenho a outra completamente cheia. Toco para confirmar. Completamente vazia. Na euforia das 6 horas, esqueci-me de encher a segunda garrafa de água em Larano. A partir de agora o desafio seria chegar a Machico sem água, sem alimentação e sob a ameaça constante de câimbras.

Geri a água o melhor que pude, mas na viragem à direita que marca o final da Levada do Risco fiquei completamente a seco. Exactamente ao mesmo tempo, comecei a sentir câimbras em músculos que nem sabia que tinha. Rapidamente percebi que se queria chegar ao fim teria de imprimir um ritmo muito mais lento. Se parti do Monte com um plano perfeito para a prova, o MIUT parecia responder com uma conspiração de imprevistos para impedir que chegasse a Machico. Mas eu também tinha os meus trunfos. Não tenho água, nem comida, mas alguém há de ter! Voltei a encontrar o Bruno na hora certa. Parámos numa clareira do percurso, para beber água e tomar um reforço de magnésio. A partir daqui, e graças ao Bruno, não tive dúvidas que iria chegar a Machico. E assim foi, alternando entre o passo e a corrida até vislumbrar no horizonte a baía de Machico e a desejada meta. Mas até ao final, ainda haveria espaço para uma última surpresa. Logo antes das últimas escadas, oiço alguém a chamar por mim – “João Paulo!”. Era o meu amigo Daniel que tendo partido do Porto Moniz 11 horas antes da minha saída do Monte, ainda teve forças para chegar a Machico antes de mim. Um esforço de outro mundo. Que honra foi ser ultrapassado pelo 3º melhor português do MIUT! É nestes momentos que tenho a certeza de que os 42 quilómetros são a minha distância.

Já na recta final que antecede a meta, pensamos em tudo e em nada ao mesmo tempo. De repente, as pernas ganham nova energia e se antes correr era um desafio, agora até parece fácil. Ultrapassada a ponte de madeira, já via a meta ao fundo, mas o meu olhar estava ocupado a tentar identificar a família e os amigos. E lá estavam eles! Um beijinho na minha filha, outro na minha mulher, só falta cruzar a meta. Tirei o boné, baixei a cabeça e rendi-me ao final da prova. 6 horas, 35 minutos e 29 segundos. O MIUT é isto mesmo, mais do que uma corrida, é uma lição de vida concentrada num dia. Com bons e maus momentos, com pontos altos e pontos baixos. Não foi desta que baixei das 6 horas, mas para o ano estarei cá de novo, pronto para mais uma lição.

Texto escrito por:
João Paulo Marques

Nota: Este texto é da responsabilidade do referido autor e aparece neste blogue como autor convidado.



Autor

O Runner Anónimo é um blog sobre corridas e histórias pessoais de um desportista amador que vive na ilha da Madeira.

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