A Costa Norte da Madeira é especial. Há sempre algo para descobrir ou explorar neste pedaço de terra, onde a natureza brindou o Homem com paisagens únicas, uma floresta verdejante e trilhos fotogénicos que fascina qualquer pessoa. 

Admito que a Boaventura não é um dos sítios que vou nos fim-de-semanas ou que levo amigos que vêm de férias à Madeira. Sabia onde ficava, já tinha lá passado mas nunca imaginei a tamanha beleza desta pequena freguesia da nossa ilha.Quando me inscrevi não estava à espera de descobrir tantos locais que merecem ficar marcados na minha memória fotográfica.

A chuva, que parecia querer “abençoar” a prova, arrefeceu os corpos quentes que partiram rumo às montanhas do norte, que mais pareciam ser SPA’s em grande escala, onde os “tratamentos” de lama abundante faziam parte do programa de ambas as provas.

3, 2, 1… Baang!

A partida bifurcada definia o destino e as ambições das centenas de participantes que recarregaram as boas energias nos percursos definidos pela organização. O sobe e desce constante davam o ritmo, ao mesmo tempo que as águas de um inverno envergonhado, desciam as encostas das mais diversas formas e feitios, inundando trilhos de terra e banhando as pedras das ribeiras que definiam o caminho até ao mar. 

No meio de tanta e boa informação visual, as pernas e o corpo começavam a sentir a inclinação mais acentuada rumo à Boca da Lapinha. E que subida! Rodeada por uma floresta densa, verde e muito escorregadia, onde a lama permitia-me testar ao limite as minhas Hoka One One Speedgoat 2, desfrutei ao máximo da paisagem verde escura e onde os pequenos raios de sol entravam em sintonia com a leve camada de neblina, que nos transportavam para um cenário digno do filme “Senhor do Anéis”.  

Depois de atingir os 800 metros de altitude, tivemos direito ao brinde: uma vista soberba seguida de uma descida em slalom, onde a mistura de lama e terra solta faziam o papel da neve numa descida rápida e vertiginosa que, quase de certeza, trouxe muita diversão e adrenalina a todos os que lá passaram.

Entre os “olá” e o “bom dia” que se davam às senhoras com lenços a cobrir a cabeça e aos senhores de foice no ombro, éramos brindados com as palmas destes mesmos populares que vibravam com o movimento que invadia pacificamente as suas terras. Entre caminhos e estradas, era hora de ouvir a “palavra do senhor”, que ecoava no vale, vindo do altifalante da Capela da Falca na Fajã do Penedo. Ainda me lembro de ouvir o “coro” da igreja juntamente com a voz grossa do sacerdote que pregava aos seus.

O “conta-quilómetros” ia aumentado e o terreno ficava mais “macio”, perfeito para meter as pernas a rolar entre os terrenos e caminhos agrícolas, com vista para os campos cultivados e casas abandonadas, que no passado serviram de lar para muitas famílias de agricultores.
A parte final estava ao virar da esquina, com mais uma subida antes da descida rápida até o nível do mar, abriam o caminho para uma última subida com uma paisagem com vista mar, até à meta situada no centro da vila. 

Mais uma no currículo 🙂

Um prova magnífica e um fim com alguma dor

Todo este relato descreve a minha prova, que no fim foi um pouco agridoce. Falhei a seguir o meu plano alimentar, fiquei maldisposto, parei um bom pedaço de tempo, esperei até ficar um pouco melhor. Com alguma dor segui em frente até chegar ao objectivo final: cruzar a meta. Foi uma pequena parte de um todo que foi fantástico.

Vivi a prova ao máximo. Uma das provas mais bonitas da nossa ilha. Deixo os meus parabéns pela escolha do percurso do Trail Longo da Boaventura e os parabéns à Associação de Atletismo da Madeira pela organização. Se continuarem assim vão no bom caminho.

Próxima paragem: Trail do Porto Moniz



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O Runner Anónimo é um blog sobre corridas e histórias pessoais de um desportista amador que vive na ilha da Madeira.

2 Comments

  1. Ivone santos

    É tão bom saber que existe alguém que viu como nós ,habitantes da Boaventura, a beleza da nossa terra! Ela e singela, mas ao mesmo tempo, poderosa . Escondida e tímida à espera de alguem que mereça admirar a sua autenticidade !

  2. Eu desconhecia tamanha beleza da Boaventura. Vai ficar na minha memória. Obrigado pelo comentário. 🙂

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