“Depois da tempestade vem a bonança”.

Doze anos depois regressei ao Porto Santo. Este regresso parecia estar agoirado pelo tempo tenebroso que era tão apregoado por ‘marujos de de água doce’, que temiam de uma espécie de ‘Adamastor’, que estaria à espreita entre a Ponta de São Lourenço e a tão conhecida e temida ‘Travessa’. A verdade é que o tempo era incerto. A chuva e o vento não davam tréguas, mas havia uma legião de destemidos aventureiros que acreditavam poder pisar uma ilha conhecida por “Dourada”, mas que estava pintada de verde esperança.

Assim foi, com o balanço do mar e com a corrente a favor, o tiro oficial de partida foi dado, depois de uma viagem calma e serena, que serviu de aquecimento para uma prova animada. Malas desfeitas, equipamento pronto, era hora de partir rumo à descoberta de um Porto Santo que não conhecia. Tal como João Gonçalves Zarco e Bartolomeu Perestrelo, senti que estava a descobrir um sítio nunca antes explorado e que, depois de uma semana de tempestade, era um verdadeiro ‘Porto Santo’, onde o bom tempo e a serenidade reinavam.

O verde dominava as encostas. Em plena zona de aterragens, os “aviões” partiam em grande velocidade para 21 km de pura alegria. O desconhecido norte da ilha estava radiante com tamanho grupo de velocistas que aceleravam rapidamente para fugir ao indesejado alcatrão que dominou o início da carreira que ia em direcção à Camacha, antes de entrar na fácil e vazia Levada do Pico, que nos conduzia para a primeira subida. O ritmo era rápido e muitos ‘motores’ já estavam com a entrada de ar aberta para conseguir aguentar a passada. Começa a subida, num misto de terra, areia e pedra, intercalado com escadas. Era hora de conseguir marcar o ritmo. Quanto mais subia, as belas vistas de uma ilha desconhecida ficavam gravadas na minha GoPro.

Valeu a pena ir num bom ritmo.

Aqueles que não foram, perderam uma prova com sol e calor, tão típico deste cantinho do nosso arquipélago. A subida ao Pico Castelo era feita em caravana, com boas conversas e algumas risadas, a malta queria mais. Com ânimo leve, desfrutava de tudo o que me rodeava. As escadas simples ajudavam a subir sem dificuldade até o topo do Pico, onde os canhões apontavam para um mar azul.

Num desce e sobe, o entusiasmo aumenta com os “quadros” de campos com erva verde, tal como no Windows XP, que contrasta com o azul do céu que dava sinais de bom tempo para o resto da prova.

Entre barras, descidas rápidas e goles de isotónico, encontrava outros camaradas com quem trocava palavras e aproveitava para falar de material de trail e desafios futuros. Esta prova era para descontrair. Lá ia filmando e fotografando alguns momento com a GoPro, sem preocupações. Parecia um turista!

Com tanta coisa, a prova estava com um bom andamento. Entre veredas e picos e mais estrada, o PIT Stop no posto de abastecimento da Serra de Dentro foi tão rápido como os Fórmula 1. A grande diferença é que a velocidade era bem diferente da dos bólides. A visão era bonita e ao mesmo tempo dolorosa. Uma longa subida com destino à Portelinha era mais fácil do que parecia, já que visão desde o CP era da malta no topo, como se fossem formiguinhas no cimo da montanha. De dentro para a Serra de Fora, a meta estava cada vez mais perto, mas antes disso era preciso passar num dos locais mais emblemáticos, os Moinhos de Vento. Há tanto tempo que não passava por lá!

Enquanto corria e apreciava o extenso areal banhado pela espuma branca das ondas, pensava na sorte que temos em ter acesso a sítios cheios de paz e sossego, onde se pode desfrutar e apreciar o que a natureza tem para nos oferecer e que por vezes não sabemos valorizar e preservar. Esta ligação com a natureza e as pequenas localidades criam sensações únicas, tudo graças a esta modalidade que me ajudou a descobrir tantas coisas novas.

Depois desta reflexão, era hora de subir umas rochas, acompanhado com o camarada Ricardo Gonçalves que puxava forte e ia dando o ritmo. Depois de alguns deslizes e desorientação por causa das marcações, lá ia eu descendo as escadarias da Capela da Nossa Senhora da Graça que assinalavam o fim dos trilhos e início da parte final da prova, que passava pelo centro da vila e pela Rua de Maximiano de Sousa, o homem que celebrizou o nome desta ilha e que me “ajudou” a dar o título a este relato.

Depois de uma prova rápida e entusiasmante, fica o bom resultado e tempo obtido, nesta que foi a minha melhor prova da época. Gostei de te ver, Porto Santo.

Agora é tempo de treinar bem, focado no grande objectivo de 2018 – O MIUT.

 



Autor

O Runner Anónimo é um blog sobre corridas e histórias pessoais de um desportista amador que vive na ilha da Madeira.

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