O tapete verde estava estendido.

A ambição, os sonhos e as vontades permaneciam ali, cruas e “à flor da pele”, prontas para o desafio, nesta que foi uma prova verdadeiramente épica!

Açores, “Ilha dos Amores” e Reino da Atlântida perdida, a tua apetência pela conquista está registada nas memórias de sacerdotes, escritores, filósofos e viajantes. São tantas as histórias de aventureiros que passaram por ti, mas uma coisa é certa, nunca antes foste trilhada assim.

Que quem quis sempre pôde; e numerados
Sereis entre os Heróis esclarecidos,
E nesta Ilha de Vênus recebidos.

Luís Vaz de Camões
in Lusíadas

O cenário estava montado e a meta estava bem definida. Tínhamos pela frente 65 quilómetros para desbravar.

Que comece a ‘batalha’ entre o homem e a montanha!

Os primeiros destemidos já tinham partido às ‘doze badaladas’. Sete horas depois, tal como eu, outros cem se aventuravam para partir rumo ao desconhecido. Assumo que estava um pouco apreensivo e nervoso, já que embarcava para uma aventura em caminhos que nunca tinha passado.

Todas as conquistas são medidas pelos feitos e objectivos traçados. E assim fomos! Uns mais confiantes que outros, as faces mostravam esperança e ambição ao som do borbulhar das águas quentes que brotam da terra, acompanhadas pelo cheiro intenso do enxofre, que criava uma “falsa” neblina, ao bom estilo figurativo das epopeias de outros tempos.

Ruas desertas e iluminadas pelo clarão dos frontais, guiavam o caminho dos destemidos, antes da alvorada na bonita e simpática vila das Furnas.

A troca de olhares e sorrisos da fase inicial acontece num cenário digno para um poema de Antero de Quental ou de Gervásio Lima. Que bonita é a Lagoa das Furnas. Com o esplendor matinal, as fumarolas adensavam ainda mais o ambiente grandioso do início de prova.

Depois de rolar durante alguns quilómetros, estava tudo quente para começar a primeira subida rumo ao Pico Ferro, que oferece o primeiro “woow” da prova. Click, click click… o som das câmaras fotográficas dos smartphones acompanham a melodia dos pássaros que chilreiam no início de mais uma manhã.

Fotos tiradas, começa a descida para uma das “imagens de marca” da prova, desta vez “ao vivo e a cores” numa das vistas mais bonitas de São Miguel.

Corre, corre e deixa o corpo rolar. Mesmo a subir a vontade de dar o máximo impedia ir devagar.

Os guerreiros já estavam espalhados pelos trilhos, num primeiro ataque ao Domus Fortis em Castelo Branco. De dentes serrados, lá fomos. Forte conquistado e corpo abastecido, era hora de continuar a expedição rumo às Lagoas. Num serpentear, entre estradões e vales verdes, a corrida continuava fluída, com o sol a brilhar lá no alto, brindando todos os estes ‘guerreiros’ épicos.

As planícies verdes engalanava as nossas passadas, enquanto florestas densas de tom escuro, davam o contraste, levando os mais distraídos ao mundo de Sauron. Era tão estranho como encantado. O calor emanava, vindo do nada! Parecia que alguém estava alguém ali tão perto.

Verde, verde, vacas e mais verde!

A imensidão dos prados deixavam-me de coração cheio. Ele batia tão forte pela emoção de absorver o que via em cada metro, passo e segundo. O tempo passava “rápido como um foguete” mas, mesmo assim, queria sentir o melhor que esta terra tem para dar. Eram pastos sem fim e pastores atarefados, vacas “às mil” e mais uns quilómetros amealhados. A prova corria e eu já queria ver as Lagoas tão afamadas.

Cristalinas, puras fontes,
Correm frescas pelos prados;
De esmeralda são os montes
Onde pastam mansos gados

Gervásio Lima
in ‘Tomás Borba, O canto coral nas escolas’

Entre descidas rápidas e técnicas, lá ia trilhando caminho até à bonita e escondida ‘Lagoa do Congro’. Sozinha e serena, ela trazia uma breve acalmia.

Grandes campos e alguma terra, o dia era dos bem aventurados que tinham a oportunidade de estar em sintonia total com a mãe natureza, que oferecia cenários para ficarem para sempre na memória. Entre vacas felizes e atletas deliciados com tamanha beleza, passámos em levadas, riachos e em zonas de maravilhosas caminhadas.

‘Olá’ e obrigado, os voluntários estavam prontos para ajudar os homens e mulheres que se encontravam nas suas campanhas. Beleza e harmonia, será que o paraíso é como São Miguel?

Fogo nas pernas e a próxima Lagoa está à vista!

Depois de uma subida dura, onde as curvas, pedras e vegetação complicavam a ascensão, fomos brindados com uma grande visão de uma enorme lagoa. Bem-vindo a uma das Lagoas mais bonitas do Açores.

Pelos single tracks e pequenos arbustos a velocidade ia aumentando. Entre os altos e baixos, onde o terreno técnico comandava ao mais alto nível, pondo todos em sentido. Eis que começa a descida com vista para a majestosa Lagoa do Fogo. Cuidado! Cuidado! Eram as palavras de ordem entre o pelotão que descia destemidamente, mas sempre com os olhos colocados no terreno que criava um V com um ângulo bem acentuado. Atentos ao chão, os sentidos exigiam mais calma para poder aproveitar as vistas para a bonita cratera deste antigo vulcão, que agora oferece uma paz sem igual.

Do Inferno até à meta

No meio de riachos, paredões, água e muita vegetação, era feito o caminho em direcção ao “el dorado“, onde pequenas subidas e barreiras para o gado iam desacelerando o ritmo. O calor apertava e a vontade de chegar ao fim era grande.

Depois da passagem pela bonita Janela do Inferno, começamos a pedir a descida rumo ao Hotel Pestana. As pernas já sentiam o desgaste deste carrossel açoriano. Num desce, desce com grandes estradões e muitas vaquinhas pelo caminho, começamos a sentir a brisa do mar. Já se via o hotel, mas ainda faltavam alguns metros de asfalto e uma pequena passagem pela areia da praia, que se “infiltrava” na sapatilha com vontade de chegar a Vila Franca do Campo.

Mais uns quilómetros por trilhos urbanos, o som de pássaros e carros, anunciavam o fim desta prova. O ilhéu de Vila Franca do Campo estava cada vez mais perto e as famosas queijadas do sítio estavam à nossa espera. A entrada em zona urbana, fechava o ciclo desta prova fantástica.

Cruzo a meta, feliz e contente por ter desfrutado de um dia épico numa ilha afortunada!

Açores, espero voltar em breve!

São ilhas afortunadas
São terras sem ter lugar

Fernando Pessoa
in Mensagem

Por fim quero deixar os meus parabéns à organização, especialmente ao Luís Onça, ao Nuno Janela, ao Alcino Pires e aos Carlos Medeiros e restantes membros da equipa. A prova estava muito bem organizada, ao nível das melhores provas que se fazem em todo o país. O percurso era fantástico e os trilhos estavam muito bem limpos e super bem marcados. Continuem assim. A prova vai no bom caminho! Abraço e obrigado por esta experiência fantástica!



Autor

O Runner Anónimo é um blog sobre corridas e histórias pessoais de um desportista amador que vive na ilha da Madeira.

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