Começo por agradecer ao Runner Anónimo (que de Anónimo já não tem nada) que me propôs escrever sobre a minha experiência no MIUT. Corro o risco de ele se arrepender porque eu escrevo como falo… muito!

É inevitável começar a falar de sonhos e o meu sonho começou lá atrás, quando via a partida dos MIUTantes à meia-noite, no Porto Moniz e dos Ultra MIUTantes que saíam de São Vicente. Ficava colada à televisão, a ver as ‘luzinhas’ a descer até a Ribeira da Janela, e arrepiava-me sempre aquela imagem, todo aquele ambiente.

Para mim aquelas pessoas não eram deste mundo e admirava cada uma delas pelo desafio pela coragem e entrega em alcançar a sua ‘Meta dos Sonhos’, como eu a chamo. Em 2015 fiz os 16kms em 2016 e 2017 fiz a maratona e foi aqui nesta última ao ser ultrapassada por um MIUTante que sem eu me aperceber, decido sonhar mais alto e “estudar” para aspirante a MIUTante, para grande desgosto da minha mãe. O que vale é que um doido nunca vem só e foram meses de treinos com amigos doidos das “carreiras”, a olhar para um gráfico nada ‘planinho’ e onde a única certeza era a de que era para fazer até ao fim fosse como fosse, porque o objectivo era a minha ‘Meta do Sonhos’!

Dia 28/04/2018

Quando a pessoa abre a porta para ir fazer 85kms e não pára de chover, mas a mãe logo diz “é para abençoar a prova” eu pensei “isto só pode correr bem”. O ambiente da partida é único, dão-se os últimos abraços à mãe e à mana e “hif5s” ao pessoal, até porque muitos só os vejo no fim, 5…4…3…2…1…Allez Allez Allez, ou dispararam qualquer coisa ou então foi o meu coração! Pronto, já está…só faltam 84kms! Subida até a Encumeada, tranquila, sempre bem acompanhada e bem-disposta, adorei quando nos começamos a cruzar com os “dorsais vermelhos” caras conhecidas, trocam-se palavras de conforto, e apoio. Encumeada já vi alguns atletas claramente em hipotermia e só pensava “não demores não arrefeças” abasteci, abraço á mãe e á mana e siga. Obrigatório falar-vos no tubo o mítico tubo, a pessoa olha para o topo, vê os outros e pensa… “nunca mais acaba” o meu companheiro de empeno disse logo “Fogo o Dhaene deve ter passado por cima do tubo”, uma vez que circundamos o tubo uma e outra vez. Foi na descida para o curral que segui sozinha, amigo não empata amigo e o acordo entre os amigos das corridas é sempre “vamos juntos até onde der” e assim foi… “até já ou até logo”… isto é o MIUT!

PA Curral da Freiras – Foto: Carolina Silva

 

Mal entro no Pavilhão do Curral tenho alguns familiares a gritar, foram-me ver! Chego com cãibras ao Curral, emocionada, e eu que nunca tive cãibras, fiquei assustada porque estava “apenas” com 28km, a prova mal tinha começado. Demorei mais tempo neste abastecimento, comi, hidratei e ouvi os conselhos de quem percebe disto recebi uma massagem de umas mãozinhas caridosas (Obrigada Sofia Relvas) e melhorei…abracei a mãe e a mana e vamosssss “tá na hora”. A subida para o Ruivo era o meu ponto de viragem, apesar de a conhecer bem, sabia que não seria fácil, e naquele dia a subida pareceu-me mais longa, quando achava que estava quase no Ruivo, não estava, pelo caminho amigos menos bem, atletas sentados a descansar ou a comer. A língua e gestos passam a ser universais para “ok?” ou “está quase” “vamos”. Para ajudar resolvo “comprar uns bastões topo de gama (dois paus improvisados) na subida, e não é que ajudaram mesmo.

Lá cheguei ao Ruivo com os meus “bastões ultra power fast” e a primeira coisa que ouço é “Filha, estamos aqui há tanto tempo à espera” eu não sabia se ria se chorava, abracei forte o meu pai que não estando muito bem de saúde, subiu ao Ruivo para ver a doida da filha chegar, e isto sim é MIUT. Bem, quem me conhece sabe que sou uma chorona portanto chorei e abracei-o muito e aos amigos que lá estavam, foi sem dúvida como tomar um gel. Foi aqui que as previsões de tempo começaram a falhar e eu sabia que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde, mas sentia-me bem, spray nas pernas, comi, hidratei agarrei os “bastões” e saí de coração bem abastecido.

Ruivo, Areeiro, agora estava em casa, as vistas eram brutais e familiares, ia falando comigo “Sónia levanta os pés” “cuidado nada de cair” apeteceu-me ligar para os amigos que estavam a correr, saber se estavam bem, o MIUT é também este sentimento de partilha de emoções de desejar que todos rasguemos a meta dos sonhos e que nos sentemos depois todos num lugar qualquer onde cada um conta a sua aventura e atropela as palavras do outro tanta é a emoção de a contar. Passei por amigos que não se sentiam bem, e segui admirando-os ainda mais, o MIUT é também isto, “mudar o Chip” como um amigo meu diz, mudar o objectivo, porque a qualquer altura tudo pode mudar, menos a vontade de chegar, e de rasgar a nossa merecida Meta.

Chão da Lagoa, mais longe do que parecia, já não via a mãe e a mana há 5horas…lá estavam elas preocupadas e de braços abertos…visitas surpresas de amigas que foram dar aquele abraço, depois admiram-se eu ser uma chorona. Mais uma massagem das mãozinhas caridosas, mais spray nas pernas, comidinha da mãe sim, porque a alimentação foi toda pensada e ajudou imenso ter visto as dicas do Runner Anónimo e da Nutricionista Nádia Brazão.  Importa comer bem e ter em atenção as necessidades energéticas do nosso corpo, ou seja, planear as refeições suprindo e compensando todo o gasto que estamos a ter. Perguntam-me como é que estava tão bem disposta, é energia da boa é emoção é sentir que tudo está a funcionar, que tenho a preparação, que ainda não me “esbardalhei” são as pessoas á minha volta, que funcionam como géis naturais e biológicos e que me alimentam, é a certeza que vou a caminho de Machico, e isto sim é MIUT.

Poiso… a minha parceira está à minha espera na ultima subida e abraça-me…seguimos trilhos diferentes mas sempre juntas. Adoro abastecimentos, é que tal como a palavra diz, “abastecem-nos” de tantas formas, aqui agarro toda a energia que me recebo…ouvir o teu nome, o apoio, a mãe a mana, os amigos que te vão ver e gritam e apoiam, é muita emoção transformada em energia. Aqui vesti o meu impermeável, ainda era dia mas estava a arrefecer, abasteci sempre com o excelente e constante apoio dos voluntários sempre atentos, um bem-haja para todos eles. A descida foi feita com um amigo de dorsal vermelho, ora ele punha o ritmo ora eu, as descidas eram tobogãs de lama lisos, ele reclamava das unhas e eu tentava distraí-lo, a ele e a mim, sim a descer eu consigo falar!

Foto: Carolina Silva

A chegada à Portela foi emotiva fui recebida pela minha equipa Porto da Cruz Trail Team e fiquei ali mesmo com um gostinho a Meta. Tinha recebido uma chamada da mãe a dizer que iam falhar a Portela porque havia uma estrada fechada. Então reajustei o plano, abasteci, comi, liguei o frontal, e ao sair, surpresa, lá estavam elas…voaram pela estrada antiga no meu “toyotinha” também ele cúmplice destas aventuras, mesmo a tempo do meu abraço, que tenho por certeza ter sido a minha energia e força desta jornada. Vieram com o mano que as ajudou a chegar a tempo de me ver…e que bom foi vê-lo ali no apoio a me empurrar para a frente, isto para mim é MIUT. Saí novamente agora com o incómodo de duas bolhas nos pés (lá se foram os pés de princesa) mas de coração reabastecido. Sabia que agora só veria o meu apoio na meta…e isso deu-me uma vontade louca de correr!

Saí confiante, as marcações brilhavam no escuro, nas funduras tentei não perder de vista a luz que ia á minha frente, quem percebe disto diz que é bom usar uma lebre, o pior é que as lebres que uso são demasiado rápidas. Depressa veio a degolada que parecia outro escorrega gigante e já ouvia as pessoas a baterem palmas no abastecimento do Larano. Quando “piquei” aqui pensei “ok Sónia agora é rolar” o MIUT é também isto é esta conversa contigo próprio é ouvires o teu corpo a tua cabeça é acreditar no teu esforço e luta e te auto-motivares, empurrando-te para a frente!

Havia arraial no Larano, só faltava o franguinho e o bolo do caco, vou guardar aquela imagem para sempre. Seguíamos atrás uns dos outros o que me dava vontade de correr ora para não atrapalhar ora para não ficar para trás. Tinha prometido a mim mesma que tinha de ter energia para correr no Larano e corri, as cagarras devem ter-se assustado porque só ouvi uma. E pimba levada essa sim interminável…gigante. Quando chego á boca do túnel do caniçal vejo o meu irmão, “vamos mana agora ta quase” hif5 energético…

De repente, as luzes de Machico estão pertinho…e já oiço o speaker…arrepio-me toda e emociono-me, alguém no cruzamento grita o meu nome, e eu corro! O meu maior adversário ficou sem bateria, o meu relógio não aguentou a emoção, não sei que horas são, quero chegar antes da meia-noite, mas naquele momento, já não interessa. As últimas escadas antes da estrada, ajeito o dorsal a t-shirt transpirada e agradeço ao meu Anjo da Guarda que nunca me falhou. Saltam-me as lágrimas quando avisto a meta e não consigo parar de correr, ouço a mãe o pai a mana os amigos as pessoas ouço-os a todos mas tenho de ir rasgar a meta dos meus Sonhos!

Rasgamos a meta às 23h52m depois de 16h52m de um sonho que se tornou real…sim rasgamos eu nunca corri só, ninguém corre, corremos juntos! Eu corri com todos no coração! E isso sim é MIUT…recebi a minha medalha orgulhosa, e guardei aquele sentimento para sempre! Acredito também que se houvesse prémio para a atleta mais chorona eu ganhava!

Por tudo isto e por tanto mais eu me confesso MIUT a ti…e agradeço do fundo do coração este empeno, que a tua essência seja sempre assim lembrada, cheia de emoção e vontade de superação própria.

Agradeço às minhas pessoas, para mim também são MIUTantes, às de pertinho e às de longe, senti-vos durante 85kms…OBRIGADA por rasgarem metas comigo mas acima de tudo por me fazerem acreditar sempre que eu sou capaz. Gratíssima e (para desgosto da mãe ou não) até para o ano MIUT.

Texto escrito por:
Sónia Silva

Nota: Este texto é da responsabilidade do referido autor e aparece neste blogue como autor convidado.



Autor

O Runner Anónimo é um blog sobre corridas e histórias pessoais de um desportista amador que vive na ilha da Madeira.

1 Comentário

  1. Grande prova, muitos parabéns! Penso que me lembro de passares por mim, mas já não sei onde. Parabéns também pelo texto, como bem dizes, “o MIUT também é isto” 😉 Até para o ano, em Porto Moniz!

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