Minha querida e amada prova.

Eu nunca escrevi uma carta de amor. Mas tu mereces!

Foram meses a pensar, a sonhar incessantemente de forma louca e desenfreada nas linhas e caminhos que te definem e te tornaram uma das melhores. O desejo de explorar-te era grande e a vontade de trilhar as linhas sinuosas da silhueta do teu desnível era intensa.

O nosso encontro tinha hora e data marcada, e nenhum de nós quis faltar. Tu desejavas e eu desesperava por conhecer todos os teus caminhos, desafios, desejos, vontades e dificuldades. A partida foi dada e subi ao teu encontro. Entre festa, excitação e centenas de apaixonados o pulsar do meu coração aumentava, como se fosse a primeira vez. Pensava que já te conhecia, mas há sempre algo de novo.

Nesse dia pediste uma lua quase cheia para nos iluminar, parecia que os deuses do Olimpo estavam connosco, abençoando uma corrida cheia de intensidade. Os teus altos e baixos iniciais mostravam a tua beleza, iluminada com o teu lado mais vibrante que entusiasma todos aqueles que te conhecem.

Tu és mesmo especial…

É tão bom ter alguém como tu, acompanhando passo a passo as nossas vitórias, mas o caminho para o teu primeiro grande declive estava no início. Sentia-me como peixe na água, compreendias-me na perfeição, mesmo quando surgia algum deslize. Cheguei ao planalto mais bonito da tua travessia, e a magia estava no ar. Mas não queria demorar muito, para não arrefecer a chama intensa que sentia por dentro, já que a vontade de te completar era o meu principal objectivo. Desci na imensidão da tua floresta, densa e verdejante, mas por vezes ia mais lento do que queria, já que estava cheio de outros teus pretendentes, que se aventuravam e te exploravam com afinco.

Mas tu não davas tréguas, aumentaste a intensidade. Era previsível que não ias ser sempre meiga, mesmo e quando te respeitam do fundo do coração. Deixaste-me percorrer-te num terreno sinuoso, escuro e denso, sem dó nem piedade, só para te mostrar que tinha a força e a fibra que tanto exiges. Mesmo assim não te deste por satisfeita! Lá continuei, sempre forte, mesmo com água a escorrer pelo rosto, trazida pelas nuvens que choravam de tristeza, tudo por causa da tua frieza, que gelava com os nossos corpos e os nossos corações.

Deixaste-me petrificado, sem reacção. A chuva, que teimava não parar e o frio que persistia estar presente, quase me deixavam ali, no fim de uma das tuas subidas mais duras. Foram cerca de duas horas parado, gelado e desmotivado. Pensava que não era desta que te conquistava, mas lá no fundo, sentia a energia que me dava um pouco de calor para continuar. Fui, destemido e com o tempo contado. O cenário não era o que mais ambicionava, mas tu persistias em ser dura com tudo e todos. Muitos que aspiravam estar contigo, ficaram cabisbaixos e desolados com tamanha desilusão.

Continuei, bem e motivado. Eu sabia que ia conseguir. Desci-te e senti todas as rugosidades do teu terreno, que escorregava e pregava algumas rasteiras. Mas não me deixei cair. Fui forte, corri em contra-relógio. Penso que sentiste a motivação e abriste mão da tua teimosia, deixando-me fluir e acreditar no sonho. Senti-me como um adolescente, cheio de vontade, força e vivacidade. Mas estava atento, eu sabia que era “sol de pouca dura”.

O sol estava no alto, o teu maciço central estava cada vez mais perto. Mas antes disso tinha de ir às tuas profundezas, através de uma longa travessia que acabava com uma descida pelas curvas e contracurvas de pedras rolantes, que pareciam ter sido colocadas propositadamente para esfriar a confiança. Tentar conquistar-te cansa. Precisava de repor as energias e descansar um pouco.

Comi e refresquei-me, falei com os meus botões e decidi manter a calma. Tal como um druida, caminhei rumo ao maior dos teus encantos. Conhecia bem o caminho, mas sempre que o faço, nunca sei quando e como acaba. A altitude das tuas montanhas entre caminhos de altos e baixos, com milhares de escadas que nos elevam aos deuses, foram feitas sempre a pensar em ti. Foi duro. O frio, o vento foram golpes fortes na motivação, mas eu resistia. Era mais forte que as partidas que o destino nos pregava. Ainda faltava chegar ao teu segundo ponto mais alto, mas aí disse que ia conseguir. Brindaste-me com escaldante e apaixonante pôr-do-sol, que ficará gravado na minha memória. É por estas pequenas coisas que, em Outubro do ano passado, me comprometi por ti.

Deixei os teus altos sinuosos e rumei para a segunda etapa, que esperava que fosse mais fácil e leve. Infelizmente os teus caminhos estavam num dia menos bom. O frio não queria deixar-te, talvez pelo ciúme ou por sentir que devia ser protagonista de um romance que não era o seu. E quase que ganhava, mas os destemidos e destemidas não queriam permitir tamanha intromissão. A paragem foi dura, o vento era forte, mas eu era mais! Tive medo, mas decidi partir. Queria mostrar toda a minha coragem e dedicação. Tudo por ti, minha prova querida.

Fui, desci, acompanhado por outros “cavaleiros dos trilhos” que lutavam pelo mesmo objectivo. Sem lema, capas ou espadas, enfrentamos as descidas tenebrosas, os caminhos escorregadios, olhando sempre para o relógio que avisava um final drástico. Mas nada nos deitava ao chão…

No sobe e desce, entre caminhos reais, parques e florestas encantadas, continuamos na senda, motivando uns aos outros, com companheirismo e muita garra. De “faca nos dentes” consegui chegar em cima da hora numa altura em que pensava que estava tudo perdido. Mas sabes, como diz o ditado, “a sorte está com os audazes”. Aquele era o meu dia.

A conquista estava cada vez mais perto, mas ainda tinha mais rasteiras.

A lua cheia iluminava a noite, mas eu, tal como outros conquistadores, precisavam de um caminho mais iluminado. Nesse mesmo momento, em que a necessidade era grande, fiquei sem a luz que me guiava. Fui ao chão, rastejei, levantei e voltei a cair. As marcas ficaram, mas não dei a parte fraca. Continuei rumo ao teu esplendor. Consegui passar pelos teus dois últimos desafios e caminhei em direcção ao teu sul, o ponto de destino que estava traçado. Ao som de aves, luzes, alucinações e algum cansaço, consegui conquistar-te. O sol tinha nascido para me receber a mim e a outros que te conquistaram, com amor, empenho e dedicação.

A partir de agora seremos eternos cúmplices. Ficarei com os teus 116Km de trilhos e 7200m de desnível positivo na minha memória. Como prometido, conquistei-te, MIUT.



Autor

O Runner Anónimo é um blog sobre corridas e histórias pessoais de um desportista amador que vive na ilha da Madeira.

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