Ora viva.

A convite do Javier, vou tentar, em breves palavras, explicar a minha experiência no mítico evento MIUT. Devo confessar que antes do grande acontecimento já entrelaçava as ideias que iria redigir. Grande erro, pois a cada passo, a cada degrau, tudo se desorganizou, tudo se apagou, mas a verdadeira essência… essa eu descobri.

Mas afinal que prova foi esta? Pois bem, dois anos após ouvir falar deste evento, eis-me aqui, na linha de partida… São Vicente é a localidade que nos acolhe e nos “abre” as portas para 85km de aventuras. Sim, trata-se da prova ULTRA.

Debaixo de um céu estrelado, ofuscado pela iluminação que envolvia o momento, vi-me perdida numa pequenina aldeia global. Ora francês, ora espanhol, italiano, inglês… a cabeça começa a ficar confusa, mas rapidamente algo desperta um friozinho na barriga. “Vamos lá pessoal, em contagem decrescente…” O coração dispara… “Será que consigo?” “…3,2,1… boa prova”.

Já não havia dúvidas, deixa-te ir. ÉS CAPAZ.

Tempo para lançar um adeus às minhas companheiras do momento, a mamã e a sobrinha, e, à semelhança das minhas experiências anteriores, deixo-me levar por aquela corrente humana que me arrasta intuitivamente, sem pensar que havia tanto para percorrer.

Inicialmente, nada passa pela mente. Que estranho! Era espectável que o momento fosse diferente. Mas ok! Toca a continuar.

Sente-se o ritmo marcado pelo toc toc dos inúmeros bastões que acompanham a marcha dos andantes, mas que termina com a sua entrada no trilho de terra. Na serra sorriem os primeiros raios de sol ao aquecer as nuvens que se alongam pelas encostas. A corridinha continua em ritmo frenético e em fila única, sem ultrapassagens.  

Dá-se a marcação do primeiro ponto e segue-se em frente. Um comboio de escadas infindáveis aguardava pela linha de seres que pretendiam alcançar o topo da montanha. Boa. É tempo de pedir emprestadas duas “bengalinhas” à mãe natureza, e assim a batalha com os degraus torna-se mais equilibrada.

A caminhada continuava, mas nada era diferente. Bolas!

Dá-se o encontro com alguns dos soldados da prova rainha, e, novamente, o coração dispara. “Então e o teu marido?”, alguém pergunta. “Quem me dera saber.” – respondo. “Acho que ele já vai mais à frente.” Indica outro guerreiro. O ambiente mudou. Dá-se início à partilha de experiências, ao interrogatório corriqueiro, e rapidamente se alcança aquela pequena abertura por entre uma vegetação que nos envolve por completo.

Ouve-se “Força pessoal!”, “Força Maria!”. Até parece que o cansaço da subida desaparece só com o ouvir destas palavras. Mas o incentivo não termina e logo que ouço “O Ricardo passou há pouco tempo, já o apanhas.”, então é que as pernas se alongam como se tivesse iniciado a corrida naquele momento. Rapidamente, avisto aquelas perninhas com um andar muito próprio, a “abelhinha” ia mesmo ali e já podia ficar descansada, pois a minha cara metade continuava na batalha da rainha. Com dois dedinhos de conversa relembrámos o nosso acordo “cada um faz a sua prova”. Segundo posto à vista. A Encumeada estava conquistada. Era hora de engolir alguma coisa. Primeira procura: cafezinho, claro. “E que tal acompanhar com um bolinho?”- pensei. Agarro no pequeno quadradinho, e à primeira dentada surge algo nada bom – náuseas. Aiiiiiii. É melhor não insistir. Um golinho de água, um beijinho ao maridão e “arranca maria que se faz tarde”.

Toca a aproveitar a descida para saltitar um pouco, mas sempre com muita atenção aos transeuntes receosos que, ou por falta de treino ou de jeito, desciam lentamente. Menos de meia dúzia de locais, juntamente com dois voluntários, marcavam o fim da descida e o princípio de mais uma subidinha engraçada, aquela que todos mencionam nos seus registos, a do TUBO. Como tinha tido oportunidade de ir conhecer o temido, a mente estava preparadíssima para ele. A seu lado formara-se um carreirinho de “formigas” que, com as suas tshirt’s multicolor, serpenteavam e coloriam a colina.

A subida termina, e inicia-se um passeio pelas montanhas verdejantes da Serra d’Água, onde se escondem pequenas casas acolhedoras, rodeadas de árvores em flor. O passeio continua até ao sopé do rochoso Pico Grande, e eis que se vai descer novamente. Trilho engraçadinho, mas que assusta os menos habituados. A atenção redobrada, o constante pedido de passagem e lá se desceu até ao Curral das Freiras. A visão começa a pregar partidas. “Bolas! O pavilhão parecia mais perto.” Pois parecia, mas ainda foi preciso subir um belo monte para lá chegar. Mais uma vez, o cansaço parece desvanecer com as palavras daquela pequena multidão que procura motivar todos os guerreiros reais. Primeiro pensamento: “tenho que comer”. Simpaticamente, uma gentil senhora oferece-me um pratinho com arroz e carne, que tinha um aspeto maravilhoso. O problema é que assim que a comida tocava na boca… náuseas e mais náuseas. Aiiii. Um golinho de água com gás, e toca a tentar comer. O corpo não quer e o melhor é avançar. Subo as escadas e entro no pavilhão. Arrepiante… essa é a palavra certa para a imagem que me inundou a alma naquele momento. Guerreiros magoados, cansados, a dormitar… “Meu Deus, o que nos leva a fazer isto?”

Uma voz amiga interrompe o pensamento, e ainda bem. “Precisas de ajuda?”, “Estás bem?”. Sou conduzida até ao saquinho que tem roupinha fresca à minha espera. Na caminhada encontro mais caras conhecidas, ouço palavras de elogio e apoio, sinto-me reconfortada. Troco de roupa, e dois dedinhos de conversa com outra guerreira. É tempo de seguir em frente, mas ainda há tempo para uma selfie com as amigas.

De volta ao percurso, junto-me a um guerreiro que partilha ideias e experiências e vamos juntos por algum tempo.

A subida é longa, o sol está forte e o ritmo torna-se mais lento. Um silêncio ensurdecedor rodeia-me. Inicia-se então uma revisão mental a tudo o que já tinha ocorrido, o que tinha imaginado, o que li e ouvi sobre a prova, enfim… Converso com “ela”. Quem é esta “menina” de 85km que se encontra na sombra da prova rainha? Porque existem tantos aspirantes a guerreiros que querem fazer parte do seu batalhão? A conversa mental é de novo interrompida por uma participante francesa, que me leva a relembrar o pouco de francês que ainda sei. O topo está próximo e as paisagens são de cortar a respiração. Picos rochosos, encostas verdejantes e horizonte coberto por um manto nuvens farfalhudas. Avista-se o imponente Pico Ruivo, o trono daquele reino no topo do céu. Corre uma brisa refrescante que alivia o calor do corpo. Passinho a passinho aproximo-me de mais um posto, onde mais uma vez as palavras daqueles simpáticos desconhecidos me enchem a alma. Perninhas a andar, sempre sem parar, lá fui até ao outro trono, o Pico do Arieiro. E que trono. A famosa escadaria que trepa por sua encosta marca de tal forma o pensamento que a subida de cada degrau é feita em pura penitência. O senhor de aparelhinho controlador marca o fim da subida e o princípio de uma longa descida até ao posto seguinte. Ziguezagueando pelo trilho fora lá se chega à tenda branca onde as energias podem ser renovadas. Aqui a paragem prolongou-se um pouco mais. “Ela” testava-me as forças. O corpo rejeitava a ingestão de alimentos, até a própria água causava náuseas. Altura de me ligar novamente ao meu mundo. O maridão continuava a sua batalha e as companheiras esperavam-me no Poiso. Ora bem. Cá estava a motivação para voltar à luta e não me deixar derrubar. Esta “menina” é difícil de aturar, mas eu sou mais forte e vou conseguir. Pés no chão e siga. Sente-se um arrefecimento repentino, cobrem-se os braços para enganar o frio e corre-se pelos corredores abertos até ao Ribeiro Frio. Pelo caminho sente-se algum desespero pelas perguntas frequentes “Falta muito para chegar?”, “A estrada está próxima?”. Os guerreiros estão estafados, esgotados, mas a batalha ainda não terminou. De pensamento fixo no Poiso, a subida faz-se a bom ritmo e na companhia de outro parceiro da batalha. De repente, ao longe, chamam-me “Força mãe”. Que lufada de ar fresco. Lá estavam elas: a minha filhota, a minha querida mãe e a minha sobrinha. Caminhando e conversando lá cheguei ao posto, onde finalmente consegui engolir duas colherinhas de caldo.

Mais uns rostos amigos, mais umas palavras de elogio e incentivo. Marcação do próximo ponto de encontro com as parceiras, e do tempo para lá chegar, foi uma boa forma de fazer renascer a energia e seguir a bom ritmo. A chegada à Portela foi rápida e voltei a tomar duas colherinhas de caldo dadas pela minha parceira e amiga Lisandra (a barulhenta). Com nova marcação com as parceiras define-se que o próximo ponto de encontro será na meta. META…

“Maria, são 5km até ao Larano. Segue.” Ordens da Lisandra são para cumprir, e lá vou eu para o carrocel das Funduras e a assustadora descida da Degolada. Nem queria acreditar. O posto do Larano ali mesmo. Que rápido. Agora não paro. Pico o ponto e sigo.

A luz do dia começa a fraquejar e a noite aproxima-se. Lanterna para a cabeça e siga. Volta-se a formar o comboio humano. Os guerreiros já não têm energia, já não conseguem lutar mais. Instala-se um ritmo monótono que transtorna o pensamento e fraqueja o corpo. “NÃO PARES”, penso. Decido descarrilar o comboio e seguir ao meu ritmo. Sou acompanhada por outros dois guerreiros até ao fim da vereda do Larano. Com o início da descida para a levada de Machico um dos parceiros prefere abrandar, e sigo acompanhada por um super guerreiro do batalhão da rainha. E lá vêm umas palavrinhas francesas para explicar que “Je sui malade”. As náuseas estavam incontroláveis. Mas o super guerreiro teimou em me acompanhar. Numa marcha militarizada seguimos até ao fim da levada. Ao fundo, um mar de luz indicava a posição do que era tão desejado. Uma nova energia recarrega a bateria corporal e o ritmo volta a aumentar. Estou quase lá. Fim da escadaria, e novamente aquelas palavras: “Força mãe”. Acompanhada pelo super guerreiro e pela filhota segui até avistar o que pretendia.

E ali está ela… a meta…

Se MIUT é a prova Rainha, ULTRA é a Princesa que ambiciona chegar a Rainha.

Parabéns a todos os guerreiros.

A amadora do trail

Maria João Abreu

Nota: Este texto é da responsabilidade do referido autor e aparece neste blogue como autor convidado.

Autor

O Runner Anónimo é um blog sobre corridas e histórias pessoais de um desportista amador que vive na ilha da Madeira.

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