Podes estar mais forte, em boa forma e com muita vontade de conseguir fazer uma boa prova. Mas nem com todas as condições possíveis consegues fazer a corrida perfeita. Correr nos trilhos por vezes é uma lotaria. Há sempre coisas imprevisíveis que podem acontecer.

Em Outubro do ano passado decidi que ia fazer a Marathon do MIUT. Já tinha feito a Ultra e a MIUT, era hora de fazer uma distância mais curta. Os 42km da Marathon eram a prova ideal. No meio disto de decidir provas e inscrições, “convenci” (na verdade ele já estava mais que convencido) o meu amigo Luís em se aventurar na sua primeira Ultra.

Eu fui para esta prova com tudo, embora que duas semanas antes tive um pequeno entorse que me deixou apreensivo. Não deitei a toalha ao chão!

Foram diversas sessões de fisioterapia, que correram lindamente e deixaram-me em perfeitas condições para enfrentar os bonitos trilhos do nosso MIUT. Aproveito para agradecer a Fisioterapeuta Joana Gouveia, do Plano D, por todo o apoio e dedicação para que ficasse a 100%. OBRIGADO!

Este era o meu terceiro MIUT, o primeiro com a camisola vermelha do A.D. Galomar, clube que comecei a representar este ano. A animação tinha começado dias antes com os colegas de equipa, que motivavam e faziam as suas “apostas” para os desempenhos na prova. A maior parte da equipa ia fazer a Marathon, por isso estávamos em constante brincadeira para ver quem ia pagar a “rodada” em Machico. É este o ambiente que se quer numa equipa!

Do Funchal até Machico

Vamos lá!

A freguesia do Monte estava animada. Sem as tradicionais barracas de comes e bebes, que abrilhantam uma das festas mais conhecidas desta pequena localidade do Funchal, estava tudo pronto para procissão que rumava para Machico.

Era música, palmas e drones. O ‘Joca’ aquecia a malta com palavras de ordem, enquanto o Sidónio Freitas (Director do MIUT) descomprimia dos vários meses de preparação com passos de dança bem ritmados.

Eram franceses, americanos, belgas, portugueses… Enfim, uma festa digna de um evento das Nações Unidas. A cada esquina ouvíamos idiomas diferentes, mas todos eles falavam um em comum: MIUTes. (eu e os trocadilhos manhosos)

A partida foi dada às 11h00, com uma subida longa que eliminava cerca de 1000 metros dos 1700 de D+ da prova. Já tinha feito aquele percurso várias vezes, desta vez estava motivado para fazer um bom resultado. Mesmo depois de duas semanas com várias idas à fisioterapia, sentia-me forte. O bom sinal estava dado, cheguei ao C/A do Chão da Lagoa com 1h06m e no top 60.

No meio de brincadeiras com os “galos” (colegas de equipa do Galomar) lá fomos em debandada. Fortes e animados para o resto da prova.

Aqui começa o fim da minha aventura.

Na descida para o Ribeiro Frio fiquei com algum medo por causa do entorse. Abrandei. Fui cautelosamente, já que não me sentia seguro a descer mais rápido. Perdi alguns lugares, mas estava confiante para subida para o Poiso. O impacto na descia era mais forte, estava a colocar uma boa parte do peso do corpo na perna onde tinha feito o entorse, de forma a sentir mais estabilidade. Um grande erro!

Foto: João Ricardo Quintal Jardim

Custou imenso descer assim. Não me sentia com uma passada de corrida fluída. E eis à chegada ao Ribeiro Frio que sinto as pernas sem resposta. Tomei uma pastilha de sal para ver se ajudava. Continuei com o Guilherme, da minha equipa, mas depois de algumas centenas de metros, não consegui acompanhar. Fui subindo com dificuldades. Não tinha força nas pernas…

Chegado às Feiteiras, elas continuam a não responder ao trote, comecei a ter dores musculares. Parei. Continuei a andar. Parei novamente! Continuava tudo na mesma, então decidi sentar-me um pouco. Tentei alongar um pouco, mas ainda foi pior. Fiquei com imensas dores, cãibras e espasmos musculares. Enfim, um massacre. Foi aí que o grande António, ajudou-me, juntamente com Rubina, Anne e o camarada Hélder, que foi espetacular e atencioso comigo. Eu contorcia-me de dores no chão. Nunca tinha sentido nada como isto.

Assim acabei e desisti.

Do DNF até a felicidade na meta

Até hoje, ainda não sei a razão da contratura e dos espasmos musculares. Esta situação pode ter várias leituras. Nas últimas duas semanas antes da prova os treinos foram mais calmos e ligeiros, já que estava a tratar do entorse. Não consegui treinar com frequência com que tinha programado. Por outro lado, no início pensei que ataquei muito cedo durante a prova, mas não é uma razão, já que me sentia bem e com vontade de correr.

Podem ser inúmeras as razões, mas não adianta de nada. O problema já está resolvido. Há muito tempo que já não sabia o que era DNF. Estas coisas acontecem quando se corre na montanha.

No entanto a prova não acabou para mim. Mesmo com a desistência, fui acompanhar a prova do meu amigo Luís.

Este camarada está comigo desde o início destas aventuras. É o maior companheiro de treinos, é aquela pessoa que está sempre disponível para ajudar e dar alento antes, durante e depois das provas. É um amigo!

Há muito que ele andava com o “bichinho” das Ultras. Foi desta que ele atacou e focou no objectivo. Durante estes meses todos tentei retribuir toda a companhia que tive durante a preparação das minhas ultras. Foram muitos sábado e domingos de diversão, companheirismo e muita corrida pelos trilhos desta terra. Foram centenas de quilómetros, horas de conversas e litros de suor bem gastos!

Ele lá foi! Vegetariano, pai de dois filhos, que pensava que não ia ter tempo suficiente para treinar para uma ultra. Mas ele tentou. Treinou e abdicou de muitos momentos para conseguir atingir aquela meta.

Fez os 85km da Ultra do MIUT com distinção. Isso encheu-me de orgulho. Depois de dois anos em que ele esperava por mim na meta, desta vez eu tive todo o gosto para o receber com palmas, palavras de incentivo e um abraço cheio de amizade.

Não fiz o triplete no MIUT, mas a vitória do Luís foi uma excelente “medalha”.

Parabéns, camarada! Quando queremos muito, conseguimos atingir qualquer objectivo.

Por fim deixo os meus parabéns aos meus colegas do AD Galomar e um muito obrigado à Nádia Brazão e ao Plano D.

Autor

O Runner Anónimo é um blog sobre corridas e histórias pessoais de um desportista amador que vive na ilha da Madeira.

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