Caraças, cheguei ao fim!

Há uma semana que ando a pensar naquele dia! A saída de São Vicente, a loucura na Encumeada; a “fila da Segurança Social” no famoso tubo; a chegada ao Pico Ruivo, sem esquecer as muitas palmas e apoio no Areeiro… são tantas e boas lembranças! 

Estava calmo. Mais calmo do que em provas anteriores. A ‘preparação’ psicológica para a Ultra foi intensa, já que não queria que ansiedades exageradas ou qualquer outro tipo de complicações  pudessem interferir no meu desempenho durante a prova.

Vamos começar pelo o início!

São Vicente estava ao rubro! As quatro centenas de “malucos” estavam à espera do ‘tiro de partida’, rumo ao objectivo. Minutos antes, a inspiração aumentava ao ouvir a voz da Ester Alves, décima classificada da mais recente edição da mítica ‘Marathon des Sables‘.

Depois disto, estava tudo pronto para enfrentar os 85k e os sobe e desce pelo “coração” da nossa ilha!

O interior da nossa ilha vibrava com tamanha multidão de atletas. A passagem pelo Rosário mostrava todo o esplendor do MIUT. Ali se cruzavam as provas principais, e a partir deste momento o francês passava a ser a língua oficial!

A subida até a Encumeada fez-se bem e nas calmas, havia trânsito e estava na hora de quebrar o gelo com a malta que participava na prova. Era uma alegria! Conheci o Gerardo e o Luís, boa gente de Leiria; o Paulo de Lisboa, que fez quase toda a prova ao meu lado; e o Jorge, que fazia a prova com a mulher. Estavam todos com um sorriso estampado na cara, devido à beleza deste percurso, onde os tons de verde se cruzavam com os primeiros raios de sol, que começavam a aquecer-nos ao ritmo do esforço da subida!

Como tudo o que sobe, desce; chegámos ao fim da primeira subida, rumo ao primeiro posto de abastecimento. A descida rápida em asfalto fazia lembrar o “Tour de France”, não só pelas montanhas e curvas e contra curvas, mas também pela massa adepta dos trails! Bandeiras, buzinas e sinos, como se fosse a etapa de Bagneres-du-Luchon!

Depois do abastecimento, era hora de tirar a senha e ser paciente na fila interminável do famoso tubo! Depois de me sentir em França, eis que volto rapidamente para Portugal,  no meio da enorme fila do tubo. Parecia que tinha chegado à Segurança Social numa segunda-feira de manhã! Era malta ao telefone, uns nas típicas selfies e outros olhando para cima, bufando intensamente, à espera do fim daquele engarrafamento.

Batata doce, atum e dois dedos de conversa.

Curral – P. Ruivo: A subida infernal!

Chegado ao posto do Curral das Freiras, era hora de comer decentemente! Fiz a minha refeição completa – Atum, Batata Doce e um chá preto para ajudar a hidratar e acordar para o duro ataque aos Picos!

Que venha o “bicho papão”!

A subida não foi má, parei pelo meio para descansar. Bateu-me o sono e a altitude ia fazendo das suas. Descansei, tomei o gel e siga para a parte final da subida. Para além das bonitas vistas, havia muito para ver e sentir. Por vezes parecia que estava num episódio de “Walking Dead”. Muitos pareciam zombies com tonturas, outros com muito para deitar para fora.

Aquela subida faz mossa, e das grandes! 

Como eu já passei pela mesma situação, dei alguma ajuda à malta que estava em mau estado. Tentei ser solidário e ajudar naquilo que podia, e ao mesmo tempo, dando algumas palavras de conforto, mesmo sabendo que aquilo não ajuda muito, mas pelo menos sentimos que está alguém ao nosso lado para nos ajudar. 

No meio disto tudo, tive de mudar de planos! A água de coco (o meu hipotónico para esta prova) não me estava a cair bem. Liguei à Nádia Brazão (que tem uma dedicação enorme para os atletas que segue) para pedir umas dicas. Muda para o isotónico da prova e “siga para bingo”!

Olha o Areeiro! 

Chegando ao Pico Areeiro.
Foto: Fernando Andrade

O pior já passou, que venha o resto!

Depois da batatinha doce, da muda de roupa e meia conversa com um holandês – que mais tarde descobri que era colega de um amigo que vive por lá (o Mundo é pequeno); era hora de seguir caminho. 

Estava feliz! A descida foi feita aos saltos, armado em coelho da serra em mato livre.

A chegada ao Ribeiro Frio foi feita sem sobressaltos. Mais um chá, mais uma leitura do meu plano. Sai meia sandes, enche o flask e siga. A noite cai e vinha uma subida manhosa. Sobe sobe, e muitas queixas dos atletas que enfrentavam mais uma subida. Sobe sobe, quanto tempo falta para chegar ao Poiso? Pois, era o cansaço a bater, ao mesmo tempo que o Adrien batia o penálti.

Estava empatado e quase no fim, era hora de ir embora do CP do Poiso. 

Corre, corre, anda, anda! Na Portela foi tudo mais fácil. Era o último adeus antes da meta. Mais um gole de água e um beijinho para dar força até a meta!

De gole em gole, vem uma tremenda Degolada!

Quem já passou por lá sabe do que estou a falar. Imaginem à noite…

Aquela descida deixa qualquer um com os sentidos apurados! Éramos quatro, todos em alerta, tal como os cães com medo. Curva contra curva, sempre a descer. Folhas, terra molhada e solta, com a banda sonora do calhau, mesmo lá em baixo, dando sinal que depois do trilho só havia mar. Esta foi a pior parte da prova!

Depois de uma descida destas vinha a recta final! Larano, Boca do Risco, Ribeira Seca e por fim Machico, o ‘el dorado’!

Os quatro mosqueteiros estavam juntos! Dois do MIUT (Mariana e o Paulo) e por fim eu e o Paulo da Ultra. Lá fomos com conversas, piadas e algum cansaço à mistura, mas sempre focados na glória de chegar à meta.

E assim foi… 

Feliz, realizado por ter conseguido atingir este objectivo. Em três anos, menos cinquenta quilos e uma Ultra, são um orgulho. Não só pelo feito, mas pela grande mudança!

Ainda é difícil expressar o que senti! Mas uma coisa é certa, a ULTRA do MIUT é uma prova espetacular!

 

Escrito por Runner Anónimo
O Runner Anónimo é um blog sobre corridas e histórias pessoais de um desportista amador que vive na ilha da Madeira.