Correr longas distâncias custam os ‘olhos da cara’, as unhas do pé, todas as gotas de suor; cada milímetro, centímetro, metro e quilómetro. Cada passo tem um valor, cada vez que inspiras numa subida sai algo de ti, em cada gole que dás no flask ou em cada barra que comes estás sempre a gastar algo.

Tudo tem um custo, mas vale todas as moedas e todo o esforço e dedicação que aplicaste!

Quando se fala em provas de 100k o cenário muda totalmente. São mais horas de preparação, a metodologia e o foco são muito mais intensos, embora que tudo depende do atleta. Para mim foi tudo vivido com uma intensidade e sabedoria diferente. Quando se parte para uma empreitada como esta, vamos com uma mínima noção do que são provas de longa distância. Podes não ter muita experiência em grandes distâncias, mas pelo menos já sabes (e deves saber) o que é fazer uma corrida acima dos 50k.

Quando tomas a decisão de correr numa prova como o MIUT – Madeira Island Ultra Trail, tem de ser feita com consciência que vais para uma prova difícil, das mais duras do circuito mundial, consequentemente a mais dura do país. Eu já tinha uma ideia no que me tinha metido, mas entrar numa prova desta é uma autêntica lotaria. O dia da prova é sempre uma incógnita, todos os planos e objectivos que traçaste podem correr bem como podem correr mal. Existem inúmeros factores que podem influenciar o teu desempenho.  Este ano eu tive essa mesma experiência (como muitos outros), mesmo que tenhas tudo preparado, há sempre algo inesperado que pode acontecer!

A chuva e o frio fizeram estragos. Eu julgava estar bem preparado. Tinha roupa extra na mochila, estava com térmica, Salomon Bonatti Pro, luvas, meias de compressão. Tudo certo, mas mesmo assim tive de parar durante duas horas, com princípio de uma hipotermia. O frio foi um inimigo de muita gente. Mesmo aqueles que estavam preparados. Perdi duas horas, mas não queria perder toda uma preparação, tempo e dedicação para esta prova. Segui caminho, mas tive o mesmo problema no Chão da Lagoa, onde o vento e frio, juntamente com o número de horas em provas faziam das suas. Foram tantas as peripécias, mas não desisti!

Mais do que pernas, o coração e a cabeça tomavam conta da minha prova.

Por muita capacidade física que tenhas, podes não chegar ao fim de uma prova como esta. Este ano tivemos muitos casos de atletas da linha da frente que tiveram de desistir. Não foi pela falta de capacidade física, nem por mau desempenho. Foi mesmo uma questão de “falta de treino” de resistência mental e psicológica.

Durante estes meses todos eu treinei a minha cabeça na hora de pensar e decidir em momentos de crise. Esse treino é feito quando estás a pensar nas provas. Este é um treino introspectivo, em que tens de te conhecer e perceber quais são as tuas fraquezas, para que na hora que começas a pensar em desistir ou em algo que te incomoda, mudes a ficha e penses em sentido contrário. Não é nada fácil, mas se pensas em estratégias e “triggers” para activar nestes momentos, as coisas correm como queres.

No entanto, há um grande factor associado, que é a vontade de conseguir atingir a meta, mesmo que não seja dentro do tempo que mais ambicionavas ou com a classificação que pretendias.

Uma boa preparação física evita muitos problemas.

Se achas que correr é suficiente. Esquece, estás bem enganado.

A preparação física vai muito mais além do que a corrida. Um plano de treino diversificado e progressivo é importante. Desde treino intervalados, treinos de alta intensidade, treinos com rampas/subidas, treino funcional com acompanhamento profissional e por fim corrida com treinos curtos e longos, são a receita para que seja possível chegar ao fim. Mas não é preciso só ter um plano, é necessária força de vontade, determinação e dedicação. Só assim se consegue uma boa forma física.

Tudo o que eu descrevi eu fiz. A preparação foi progressiva, para chegar a um pico e manter a carga e intensidade durante algum tempo, para que o corpo aceite de uma forma natural e mantenha os ritmos impostos. O treino funcional, talvez dos mais importantes neste processo, ajuda a trabalhar o core e melhorar a tua capacidade na hora de enfrentar subidas longas e descidas vertiginosas. O trabalho de reforço muscular, feito nestes treinos é primordial para que estejas forte durante e o pós-prova.

Comer e beber bem, são meio caminho andado para uma prova perfeita!

Cada vez mais os atletas dão importância a aquilo que comem. Até os da linha da frente já olham para a parte nutricional como meio de conseguir um melhor desempenho.

Este ano, a minha prova correu lindamente neste sentido (pela milésima vez, obrigado Nádia Brazão). Não tive nenhuma má disposição, embora que houve alturas que não me apetecia comer. Não era por causa do plano alimentar, mas sim pelo desgaste da prova. Há alturas que não queres, mas tens mesmo que comer. Lembro-me que no Curral das Freiras e no Chão da Lagoa não tinha grande apetite, mas mesmo assim meti a comida à boca. Só assim iria ter energia para chegar ao fim.

Este ano tive dois desafios, para além dos três dígitos, fiz uma prova a comer produtos biológicos e isento de OGM – Organismo Geneticamente Modificados. Depois da prova estava super bem do estômago, sem nenhum tipo de problemas nem nada estranho (se quiseres saber mais sobre aquilo que comi, podem ver aqui). Nos dias seguintes senti que a recuperação física foi mais rápida do que outras provas. Penso que isto está relacionado com os bons produtos que comi antes, durante e depois da prova.

O impacto dos 100k

É claro que uma prova como esta é uma violência para o corpo humano. Fazer 116km, seguidos, sem dormir e sem grandes momentos para descansar não é fácil. Eu não fiquei com grandes problemas, embora que existem pequenas mazelas: pés inchados, pequenos hematomas, 10 unhas negras nos pés, arranhões e cansaço muscular são uma realidade. Mas o mais complicado são as horas de prova. Eu fiz 31h30m, o que é muito duro. Não era o meu objectivo, mas foi o possível. O cansaço era grande, o sono atacou-me nos últimos quilómetros mas mesmo assim consegui aguentar. No total, estive 49 horas acordado, algo que não me lembro de ter feito, nem quando era adolescente.

No fim, depois de todas estas horas e de todos estes centímetros, metros e quilómetros percorridos o sentimento de dever cumprido enche-nos o coração de uma forma única e espetacular!



Autor

O Runner Anónimo é um blog sobre corridas e histórias pessoais de um desportista amador que vive na ilha da Madeira.

6 Comentários

  1. 10 unhas negras?? Isso não é normal.. tens que rever a tua escolha de calçado! Experimenta meio número acima ou um modelo que tenha mais espaço para os dedos dos pés! Mais uma vez, parabéns pela tua epopeia. Às vezes tem que ser mesmo assim, deitar os planos para o lixo e ligar o modo sobrevivência.

  2. Eu utilizei dois pares de sapatilhas durante a prova. As Hoka One One Speedgoat 2 não me fazem nada aos pés, são impecáveis! Infelizmente tive de trocar, estavam super molhadas e cheias de lama. O problema foi causado pelas La Sportiva. Eles têm espaço, o número é acima. Tudo certo, mas eu tenho um problema com elas… a parte da frente tem uma espécie de “biqueira” para proteger. Nas decidas, os pés, ao bater na nesse plástico mais rígido, causaram estes hematomas. Não estava planeado trocar de sapatilhas, mas lá teve de ser.

  3. mike freitas

    Amigo eu uso as La Sportiva Ultra raptor e as Adidas Terrex. As primeiras para amortecer os meus 90 e muito kgs e as outras para progressão e trilhos mais técnicos. A dupla laçada no tornozelo ajuda em não bater os dedos na frente. Fiz todas as provas do Miut desde os 21k até aos 115k. Consegui fazer 25h em 2017 com muitos azares pelo caminho. Um conselho que dou a todos, treinar sozinhos quase sempre. Treinamos a parte mental e os nossos limites a solo. Um bom plano de treino, estudo do desnível da prova e alimentação no dia da prova é essencial. O equipamento conta também muito. Boas corridas amigos!!!

  4. Olá, Mike.

    Eu uso a dupla laçada, mas assumo que mais para o fim da prova a sapatilha não devia estar bem apertada e por isso aconteceu isto. Eu, na maior partes das vezes, costumo treinar acompanhado nas montanhas. Faço-o por segurança e por juntar o “útil ao agradável”, mas compreendo o teu ponto de vista. Quanto ao treino mental penso que pode ser feito através de um verdadeiro conhecimento dos nossos limites, das nossas capacidades e dos nossos pontos fracos. Quanto ao resto, é sempre importante ter um plano em tudo, mas não devemos viver obcecados com isso durante a prova.

    Obrigado pelo comentário! Boas provas e bons treinos. 🙂

  5. João Freire

    49 horas sem dormir, UI ui.

    Muitos Parabens pela prova.

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