Planeamento. Uma palavra que aflige muita gente pela sua força e significado. Desde a vida pessoal à vida profissional, com amigos ou família, o planeamento está presente desde a hora que acordamos e mesmo enquanto dormimos. Mas nem sempre é possível planear tudo ao máximo e ao pormenor. Esta é a lição que tiro de mais uma prova.

Vamos falar do Trail Porto da Cruz Natura

Eu não sei se já escrevi isto por aqui, mas o Porto da Cruz é um dos sítios onde mais gosto de correr cá na ilha. A beleza natural desta terra é grande. Os seus trilhos, as praias, a cana de açúcar, o rum e a mítica Penha D’Águia são imagens de marca deste pequeno paraíso.

A minha relação com esta vila do nordeste da ilha é antiga. Nos meus tempos de adolescente, passava algumas vezes por lá, graças a um amigo que tinha casa na vila e que nos convidava para passar uns dias de muita farra, praia e inúmeras tentativas, falhadas, em aprender a fazer bodyboard.

As razões para fazer esta prova eram óbvias. Pelo incrível que pareça, esta foi a primeira vez que a fiz!

Partida…

Já conhecia bem os percursos, mas não me sentia confiante. Este ano a minha preparação está diferente. Depois de um 2018, cheio de dureza, com três ultras e meia dúzia de provas, decidi os objectivos deste ano eram outros. A minha entrada na equipa do A.D. Galomar ajudou na decisão que tinha tomado, fazer o circuito regional de Trail Curto, para pontuar pela primeira vez.

Foto: Bruno Abreu

Esta mudança implicou mudar o ‘chip’ e o plano de treinos, focando mais na velocidade e menos na resistência. Essa mudança trouxe resultados que me deixaram surpreendido. Boas classificações na geral (no meu ponto de vista) e no escalão, davam alento para fazer mais e melhor. Por isso foquei-me a 100%. No meio disto tudo, houve uma pequena lesão depois do MIUT, onde tentei fazer os 40km e não consegui acabar.

Tinha feito o reconhecimento e tudo tinha corrido bem. Sabia onde tinha de dar o melhor de mim. Parti lá atrás, com calma. O início destas provas é feito em ritmos elevados. Assim foi, nos primeiros 300 metros o ritmo no pelotão era de 4:10. Numa prova de 25 km, e com uma subida inicial bem durinha, a malta estava entusiasmada. Mantive um ritmo mais conservador e lá dei a voltinha à freguesia.

Foto: Alexandre Vieira – Aguenta que Vai

A estratégia era ganhar vantagem na subida, já que é onde consigo ter melhor desempenho. Desta vez fui de bastões, embora que não sei se foi a melhor decisão. Com um trote ritmado, tentei ultrapassar muita malta, sem querer estar a esticar muito até ao fim da primeira subida e estar bem na zona da Levada do Furado. Assim foi, estava bem, pronto para atacar na segunda subida rumo à Portela.

Antes da subida, na descida tentei poupar-me, e comecei a abrandar. Entre caminhos de cimento e passagem pela “civilização” começaram as escadas. Foi aí que comecei a sentir algum cansaço e dor muscular, com menos intensidade que na última prova que desisti. Comecei a abrandar, e subi penosamente até à Portela. Foi a partir daqui que as coisas começaram a correr mal, e decidi que ia desistir. Aqui começa a lição e o propósito desta publicação…

Treina bem, com plano e com foco

O início deste texto tem um propósito: registar neste meu “diário de provas” aquilo que se deve ou não fazer, para que fique registado como memória futura e, quem sabe, sirva de exemplo para outros. A minha desistência foi feita com cabeça fria e de forma muito conservadora. Durante a subida para a Portela o corpo não respondia. Como disse, comecei a sentir um cansaço muscular grande. Estava a fazer tudo conforme as regras. Alimentação e hidratação estava a ser bem feita, mas o erro era outro…

Fazer planos é muito importante e nisso falhei. Depois dos Abutres, foquei-me a treinar novamente para os Trail Curtos, tendo em conta aquilo que falava no início do texto. Fazer a longa estava fora dos meus planos mas, como era a prova que decidia os campeões de equipa, era importante e necessário contribuir para a minha. Aceitei o desafio, mas assumo que foi um erro.

Mesmo tendo ido mais calmo no início e não ter puxado muito, o desgaste começou aparecer. Duas semanas antes tinha feito o reconhecimento sem problemas, por isso não é uma questão de distâncias ou outro tipo de problemas. Eu gosto de dar o meu máximo nas provas, e o ritmo das mesmas são exigentes, mesmo não sendo um atleta da linha da frente, vou sempre a tentar subir lugares, principalmente nas partes onde sei que consigo dar mais. Para estar bem numa prova de 25km, é preciso treinar para essa distância. Assumo que não treinei para esse objectivo.

Este erro que cometi é cometido por muitos outros, muitas vezes de forma inconsciente ou por falta de conhecimento. Quem se prepara para fazer provas de 10 quilómetros dificilmente consegue correr 20 ou 40 no mesmo ritmo que faz uma de 10. Eu já sabia isto, mas por dever lá fui. Devia ter pensado de uma forma mais consciente e não ter feito a prova. Mas é assim que se aprende.

Por fim, dou os meus parabéns à organização por mais uma prova de sucesso. Tudo bem marcado, terreno impecável e o traçado excelente. Também quero deixar aqui os meus PARABÉNS às meninas da minha equipa (A.D. Galomar) que se sagraram Campeãs Regionais de Equipas. Fiquei muito contente pelo vosso excelente desempenho e resultado!

Autor

O Runner Anónimo é um blog sobre corridas e histórias pessoais de um desportista amador que vive na ilha da Madeira.