Festa que é festa, tem de ser grande, bonita e cheia de convidados!

Este ano tive uma sorte daquelas. Quando comecei nestas andanças, ouvi falar de uma prova dura, fria e cheia de lama, lá para os lados de Coimbra. Oito anos depois da primeira edição de uma das provas mitícas do calendário nacional, tive a sorte de conhecer o Trilhos dos Abutres, em versão especial TWC – Trail World Championship.

DIA 1 – TWC – Trail World Championship.

Que emoção!

Todos falam, merecidamente, dos vencedores. Isso nem se questiona, mas para mim a maior vitória foi a dos adeptos desta modalidade. Posso estar errado, mas acho que o trail em Portugal nunca teve uma festa como a de Miranda do Corvo. Eram centenas, talvez um milhar de entusiastas animados com o segundo mundial em terras lusas.

Todos falam, merecidamente, dos vencedores. Isso nem se questiona, mas para mim a maior vitória foi a dos adeptos desta modalidade. Posso estar errado, mas penso que o trail em Portugal nunca teve uma festa como a de Miranda do Corvo. Eram centenas, talvez um milhar de entusiastas animados com o segundo mundial em terras lusas.

A partida foi o bom presságio para tudo aquilo que aí vinha. Durante 3 horas, eu e o camarada Luís, andamos por várias zonas do trilho para acompanhar a nossa selecção. Que loucura! Gritos de apoio, filas de carros na estrada, buzinas, apitos, bandeiras e muitas palmas davam ânimo aos nossos e a todos os outros atletas. O espetáculo estava acima de qualquer rivalidade ou estrelas.

Miranda do Corvo fazia a festa. As serras acompanhavam toda a alegria, brindando os atletas com belas vistas. Esperem mais um bocadinho que eu já falo das vistas no relato da minha prova…

Senhora da Piedade – O ponto alto do campeonato do mundo de trail

Nunca tinha visto nada assim no trail em Portugal. O mais parecido que assiti por cá, foi na passagem na Ribeira da Janela durante o MIUT, mas mesmo assim não se compara a moldura humana e a loucura que se vivia nas escadas da ‘Senhora da Piedade’.

Trilhos dos Abutres 2019
A festa do TWC na Senhora da Piedade

Que espetáculo. Todos vibravam com a passagem dos atletas. Gritos de incentivo, palmas e muita festa. Na passagem do primeiro português, na altura era o André Rodrigues, todos gritavam “Portugal, Portugal” em uníssono, que fazia estremecer as árvores e os nossos corações.

Trilhos dos Abutres 2019

A meta e Portugal

É escusado falar sobre os vencedores. Já estão bem escritos nos sites da modalidade.

O ambiente da meta foi espetacular. O Joca, animava as hostes e a malta esperava pelo melhor português. Hélio Fumo fez uma prova soberba, de trás para frente, chegando em 10º lugar com as últimas ultrapassagens a serem feitas mesmo antes da meta. Nas mulheres, Mary Vieira igualou a melhor classificação dos femininos com um excelente 10º lugar.

Trilhos dos Abutres 2019

Pela segunda vez recebemos o campeonato do mundo e mais uma vez soubemos mostrar que conseguimos organizar provas de grande dimensão e que os nossos trilhos são de extrema qualidade.

Vamos falar do dia seguinte – A dureza dos Trilhos dos Abutres

Antes de começar a descrever a minha prova, tenho de assumir que não estava à espera de grandes resultados. Nos dias que antecedem as provas mais longas costumo estar com aquele “bichinho nervoso”, para ter tudo pronto e preparado, ansioso para a hora da partida, mas desta vez estava tão relaxado e despreocupado o que me deixou a pensar.

Depois de um sábado agitado e de emoções, domingo era o dia de partir para o mesmo trilho que levou o “selo do campeonato do mundo”. Com algumas alterações em relação à prova original, os Trilhos dos Abutres lá partiu sem lama, sem chuva e sem frio. Perfeito!

Aquela partida de Miranda do Corvo foi especial. Aquela volta para conhecer a pequena e simpática cidade foi perfeita para ver aquilo que não tinha visto no dia anterior. Entre subidas e voltas, típico de um domingo de passeio que começava como uma passagem pela igreja matriz, que abençoou a malta, lá rumava para o empeno da semana.

O início da prova trouxe-me boas energias! Estava com bons amigos. A missão “Abutres” foi feita na companhia do Luís, camarada, bom amigo e companheiro de treinos, que viajou comigo até ao rectângulo para enfrentar esta prova. Já em Miranda, minutos antes do início encontrei-me com o Paulo, um “irmão de armas”, nesta que foi a segunda partida que fizemos juntos. Conheci este camarada em 2017, na nossa primeira ultra, os 85 do MIUT. Ficámos amigos e cheios de boas memórias. O trail tem estas coisas bonitas.

Vamos continuar, que ainda faltam muitos metros para (d)escrever…

Os primeiros quilómetros aqueciam a malta. Eram chineses, sul-americanos e muitos portugueses, tudo feliz e contente. Esta primeira parte de transição entre a zona citadina e os trilhos que nos levavam para o primeiro posto em Vila Nova, era uma espécie de cidade campestre, com passagem em parques, estradões e pequena áreas habitacionais. A transição era progressiva, aumentado aquela vontadinha de entrar em trilho puro e duro, onde o verde domina.

Heyyyy, travão a fundo! Temos paragem no trilho. Quem parte lá atrás já sabe que vai levar com “trânsito”, a malta estava com medo de meter os pés na água. Bem, percebo que estava tudo quentinho e molhar as sapatilhas, meias e pés é chato… malta, quem anda nos trilhos é assim! Não venham com a conversa das meias molhadas, pés “assim e assado”. Quem não quer molhar o pé, não entra em provas de trail.

Lá continuamos. Estava bem, fui correndo ganhando vários lugares. Como não tinha explorado o território, ia rumo ao desconhecido! Perfeito para aproveitar as vistas. Aos poucos entravámos em caminhos florestais, mas o melhor ainda estava para vir.

Entre subidas, descidas curtas e rápidas, com algumas passagens mais técnicas, lá ia eu num grupo bem-composto (penso que estava no fim da primeira metade). Tudo normal, sem grandes alaridos. Faltava qualquer coisa, a sensação inicial não era das melhores. A malta ia com um semblante muito carregado e com muito foco competição, algo que não é muito normal neste grupo intermédio. Sei lá, às tantas estava mais à frente do que pensava. Lá ia eu a assistir aos bloqueios (espero que tenham sido involuntários) nas ultrapassagens e as perseguições ferozes.

O ritmo ia forte, acalmei e tentei encontrar o meu. Esta prova é tão “corrível” e rápida. Estava mesmo à medida da elite que correu no dia anterior. Depois de alguns quilómetros com o conterrâneo Gonçalo, ia “sozinho” sem grandes conversas com outros atletas. Também não era fácil.

As famosas escadas da Senhora da Piedade. Chegamos ao momento alto da prova.

Eu nem me apercebi. Duas horas e cinco minutos de prova estava eu no quilómetro 16. Abastecimento feito em formato F1, água e Tailwind no flask, barra na boca. Siga, hoje também temos festa. O som das buzinas e chocalhos era forte. A memória fresca do dia anterior trazia um sorriso e um arrepio daqueles. O momento merecia uma recordação para a posteridade. Liga GoPro, começa a gravar.
Foi isto…

Que momento bonito. Público a puxar, alguns dos atletas da nossa selecção estavam lá a retribuir o apoio do dia anterior. Mais arrepios, boas sensações e muita energia. Que espetáculo! Eu subi aquelas escadas em grande ritmo. Se esta sensação foi de outro mundo, como será Zegama? Sim, eu sei a malta toda andou em comparações, mas Zegama é Zegama e o que se passou no Abutres é Abutres. Cada uma ao seu nível, com seu esplendor. Sem comparações ou imitações.

Depois desta passagem épica, começa a prova. Trilhos técnicos e subidas exigentes, entrámos em zona verde com várias pontes, riachos e cascatas. Uma zona muito bonita e dura. O terreno estava seco, tirando uma ou outra área que não tinha exposição solar, ou que estava junto aos cursos de água. Nem quero imaginar como é na versão original dos Abutres.

Se na primeira fase dava para correr bem, nesta parte da prova o ritmo desce. Já se sabia que a altimetria ia subir. Lá fomos rumo às Mestrinhas. Para lá chegar foi difícil! Quase ao chegar ao ponto intermédio no Cadaval, as coisas começaram a correr mal para o meu lado. Dores musculares e má disposição atacaram.

Dois anos depois de ter ultrapassado uma época complicada em encontrar um equilíbrio na digestão de alimentos em prova, senti-me mal pela segunda vez (a outra foi nos Açores no ano passado). Depois de uma paragem durante largos minutos, o grande Sérgio Catarino safou-me com o seu conhecimento, paciência, companheirismo e o seu “kit” de primeiros socorros. Deita fora, come algo e siga. Lá cheguei ao ponto intermédio do Cadaval, onde a organização estava a fornecer água, num momento que o calor apertava. Eu não arrancava, as dores musculares trouxeram cãibras. Minutos depois safei-me com saboroso magnésio da Sara, atleta da equipa dos amigos açorianos, os Morcegos. A passagem até as Mestrinhas foi feita numa ritmo baixo. Já sabia que não ia fazer a prova que queria, por isso preferi não esticar muito. Não conseguia comer nada. Só bebia isotónico, foi o que me safou.

Trilhos dos Abutres 2019

Sofrido das Mestrinhas até ao fim.

Uma das coisas que mais detesto que me aconteça numa prova é não conseguir comer. Assim foi quase até ao fim. Mal conseguia meter algo na boca. Mas lá tive de arranjar alternativa e formas de ter energia para conseguir chegar ao fim. Como não costumo comer nos postos, não estou habituado a ver o que há por lá. Quando cheguei olhei para a mesa e vi batatas fritas, banana, laranja, cubos de marmelada, litros e litros de Coca-Cola. Não conseguia ir aos sólidos. Olhei, pensei comer uma das minhas barras, mas não conseguia. Pensei novamente! (In)felizmente fui para a cola. Há cinco anos que não sabia o que era beber um refrigerante gaseificado. Eu aboli essas bebidas na minha vida, mas naquele momento não tinha muita hipótese. Não há de ser nada.

Fiquei mais descansado e com energia suficiente para enfrentar a subida para o observatório. Foi feita nas calmas, sabia que vinha a longa e interminável descida final. Cheguei bem lá cima , agora é hora de seguir. siga. “Perdeste muito tempo, agora é hora de remediar.”

Trilhos dos Abutres 2019

Custou a arrancar, mas lá consegui fluir bem. Uns quilómetros depois houve nova paragem, desta vez foi para ajudar um camarada que estava com muitas cãibras. Outro colega estava lá a auxiliar, mas decidi parar. Quando passámos por alguém em situações parecidas é normal que a preocupação seja maior. Cumpri o meu dever. Parei, falei e ajudei dentro dos possíveis. Lá ficou melhor e seguiu o seu caminho.

Retoma o ritmo e desce. A descida parecia muito simples, terra fofa, sem “rasteiras”. Dava para ir rápido, mas a “esmola era grande”, por isso comecei a ficar desconfiado. Tinha razões para tal. Não há descidas fáceis numa prova deste calibre. Antes de chegar ao último P.A. em Gondramaz, começa uma parte mais técnica que serve de “entrada” para o que vem depois do abastecimento. Este posto era um festim para os mais gulosos. A malta comia sandes de presunto com muita vontade e alegria. Ainda bem que conseguem. Um pouco de tomate e pão foi o que me alimentou até ao fim.

Vamos lá atacar o resto que vem. Passagem rápida nas bonitas ruas da Aldeia de Xisto de Gondramaz, deu-me vontade de voltar para explorar estas pequenas aldeias. Entrei no trilho e comecei a ver pedras, cordas e zonas mais apertadas. Olé, mais uma zona técnica para fechar em grande. Estava bem, fui descendo rápido. Desde o observatório até à meta devo ter ultrapassado cerca de 30 pessoas. Aos pouco vamos sentindo a civilização: casas, motorizadas e mais pessoas. Os quilómetros de trilho davam os retoques finais de lama nas sapatilhas. Sai do estradão, já se vê estrada. Estamos bem perto do centro de Miranda do Corvo. A voz dos speakers era audível, bem lá no fundo. O público dava as suas palmas e eu já estava com a sensação a prova esta feita.

Com um misto de alegria e de tristeza por não ter feito a prova que queria, cruzei a tão desejada meta.

Trilho do Abrutes ✅

Parabéns à organização pela bonita prova. Muito bem sinalizada e com um pouco de tudo. Confesso que o desenho da prova não é o meu favorito. Muito rápido e com um sobe e desce constante. Mas isso são preferências pessoais, que nada chocam com a qualidade desta prova.



Autor

O Runner Anónimo é um blog sobre corridas e histórias pessoais de um desportista amador que vive na ilha da Madeira.

O vício das corridas
na tua caixa de e-mail

Subscreve e recebe todas as novidades do blogue.

Obrigado!

Algo está mal...