Santana.

Terra do pão, das montanhas, da natureza deslumbrante e das casas que promovem a ilha da Madeira por todo o Mundo.  Popularmente conhecida como a terra dos “Bragados”, desde o tempo da sua povoação foi uma terra apetecida e visitada pelos burgueses e a mais alta nobreza portuguesa. Passados quase 500 anos da sua fundação, Santana é cada vez mais desejada e amada por uma outra “realeza”, que deseja trilhar e correr numa das melhores provas do Tour Mundial de Skyrunning, o USM – Ultra Skymarathon Madeira.

Este ano tinha programado participar na prova principal do USM, mas depois de ter recuperado de uma pequena lesão, decidi que devia descansar!

Depois de ter feito esta escolha, contactei a organização para seguir a prova no seu interior, no intuito de escrever esta mesma publicação e dar a conhecer o trabalho, os desafios e toda a dedicação da organização e das duas centenas de voluntários que ajudaram no sucesso desta que é uma das maiores provas de Skyrunning do Mundo.

Os bastidores de uma prova

Uma prova deste calibre é preparada com quase um ano de antecedência. Isto é, depois do balanço de cada edição a equipa que organiza o USM começa a preparar a edição seguinte. Como devem imaginar, a exigência é grande e tudo tem de estar alinhavado e pronto que aconteça de forma eficiente e organizada.

Durante os dois dias do USM, tive a fantástica oportunidade de acompanhar o Director de Prova, João Nunes, durante vários momentos nos quais fiquei a conhecer todo o trabalho, bastidores e tudo aquilo que não é visível para o público e participantes. O programa desta edição preenchia a sexta e o sábado com muita animação e movimento em todo o concelho de Santana. O arranque oficial da prova foi dado no primeiro dia de Junho, em pleno coração da Laurissilva, com o ‘SVK – Santana Vertical Kilometer’®, prova do circuito mundial de KM Vertical – Vertical Kilometer World Circuit.

A reunião das diversas equipas aconteceu cedo, para que toda a logística fosse para o terreno o mais rápido possível. Logo de início comecei a perceber, com vários detalhes, parte do funcionamento desta organização; o núcleo forte do USM está montado através de uma hierarquia bem definida, com chefes de equipas e departamentos distintos, onde cada um dos responsáveis de cada área organiza a sua equipa, bem como as responsabilidade que lhe estão incumbidas. Todos sabem o que devem fazer e quase não precisam de orientações, já que as suas responsabilidades estão bem definidas muito tempo antes de irem para o terreno. Este nível de organização só é possível através de uma boa dinâmica entre os diversos membros da organização, pela sua experiência e a forma como estabelecem regras, planos de trabalho e objectivos.

Eram 7h30 da manhã, todas as equipas estavam nos seus postos de trabalhos. Uma hora e meia depois dava-se o início do SVK no Vale da Lapa, local de partida para mais de uma centena de participantes que se aventuravam nesta prova exigente do tour mundial de quilómetro vertical. A preparação da linha de pré-partida, partida, sistema de som, listagem de partidas e cronometragem foram montadas rapidamente. Para além da partida, estavam no terreno vários voluntários que garantiam a segurança em locais que exigiam mais atenção, bem como na chegada e no posto de abastecimento final que estava colocado na Achada do Teixeira.

À mesma hora, outros grupos de voluntários ajudavam nos preparativos das provas do dia seguinte, organizando tudo o que estivesse relacionado com a partida, trilhos, segurança e alimentação de atletas e voluntários. Durante todas as horas que antecedem as provas, o grau de exigência é grande e tudo é  analisado e trabalhado ao pormenor, para que nada falhe. Não vós quero dar a ideia que tudo é perfeito, isso não acontece em nenhum evento, mas a atenção e preocupação constante é visível em todos aqueles que desempenham as suas funções e principalmente no João Nunes, que está sempre atento ao profissionalismo e empenho da equipa, incentivando-os e ajustando tudo, para que a “máquina” esteja sempre a funcionar da melhor forma. É impressionante como as montagens e desmontagem são feitas em velocidade cruzeiro, o que demonstra a experiência desta equipa.

“Quartel-General” – O ‘coração’ do USM

O “quartel-general” estava montado no epicentro do evento, no edifício da Câmara Municipal de Santana, que apoia estrategicamente esta prova de cariz internacional e de grande interesse para o município, tudo graças ao grande fluxo de atletas/turistas que contribuem muito para a economia local durante a sua estadia.

Qualquer máquina precisa de um bom motor para funcionar, neste caso podemos dizer que o “motor” desta prova é o “quartel-general”, lugar onde se desenrola uma boa parte do trabalho invisível para atletas e espectadores. Nesta área está montada a central de comunicações, direcção de prova e todos os materiais de ajuda aos voluntários e equipas de trabalho. É a partir daqui  que boa parte da prova é gerida e controlada por cerca de uma dezena de pessoas que se dedicam às mais diversas áreas; desde a logística e recepção de voluntários, que aqui recebem os seus kits compostos por um casaco/polar da Berg, feito especialmente para a prova, alimentação, entre outras ferramentas para que desempenharem as suas funções.

É nesta área que se encontra um dos lugares mais interessantes e impressionantes desta prova: a central de comunicações. A organização do USM, com a sua experiência de anos anteriores, decidiu fazer um grande investimento nas comunicações, montando uma central de rádio, exclusiva para o evento. Esta central está servida com um sistema de comunicação rádio, que é feita através de walkie-talkie, utilizada para comunicar com os vários chefes de equipas, postos de abastecimento e equipas de segurança, cobrindo todos os pontos cruciais do evento. Para além destas equipas, as forças de segurança também estão ligadas aos mesmos canais, para que caso fosse necessário estarem a par de qualquer eventualidade.

Eu tive a autorização e oportunidade de ficar a conhecer este espaço através de uma pequena “visita guiada”, onde me explicaram todos os pormenores. Só para terem ideia, sala estava munida de vários ecrãs (como podem ver nas fotos) que davam diversas informações. Os vários voluntários e profissionais de diversas áreas controlavam a localização das várias equipas no terreno, que estavam munidas de GPS; a informação meteorológica era controlada ao pormenor, com análises constantes aos desenvolvimentos com informações de satélite; a equipa médica também tinha um papel importante na central de comunicações, estando em contacto com os vários postos para que fosse sempre disponibilizada qualquer informação técnica para casos que pudessem surgir.

As comunicações eram constantes. Desde pedidos, informações sobre os desenvolvimentos dos trabalhos e outros assuntos relacionados com os atletas e a organização eram comunicados para a central ou para os chefes de equipa. Num dos vários momentos que estive com o director de prova, ele explicava que ter uma central de comunicações acelerava os processos de trabalho e melhorava a comunicação entre as várias equipas, já que antigamente, quando o faziam por telemóvel, demoravam muito mais tempo para passar uma simples mensagem e por outras vezes uma só pessoa estava com dois a três telemóveis ao mesmo tempo. Assim poupam recursos, comunicam mais rápido e todos conseguem estar a par das informações mais relevantes da prova.

A segurança dos atletas e voluntários é uma prioridade

O USM, a par do MIUT, são as únicas organizações de trail na ilha da Madeira que têm um plano de segurança reconhecido pela Protecção Civil. A criação deste plano é uma prioridade para a organização, já que a segurança máxima numa corrida desta dimensão é obrigatória e isso define a sua qualidade.

Um dos postos médicos da prova

Uma prova que seja bem organizada e segura, deixa os atletas, familiares e espectadores mais descansados, já que sabem que está tudo pensado e organizado para todos estejam em segurança. Para chegar a este ponto é preciso trabalhar todos os aspectos ao pormenor e, principalmente, conhecer o terreno. A equipa de trabalho prepara tudo através de vários reconhecimentos dos trilhos, análise cartográfica e reuniões com a protecção civil municipal, bombeiros e equipas médicas. É a partir deste levantamento de informação e entendimento entre ambas as entidades que se consegue chegar a um plano conjunto, que visa responder possíveis situações que possam surgir.

Os Voluntários – A alma e coração da prova

Qualquer prova de trail, skyrunning ou de outro desporto que tenha a dimensão como esta, necessita de um grande número de voluntários para que estas aconteçam. Só assim é que é possível levantar e fazer acontecer uma prova de nível mundial. Todos nós que corremos nos trilhos sabemos que sem as pessoas que estão nas mais diversas funções de uma prova, nada disto era possível. Todo o entusiasmo, atitude, apoio, consideração e trabalho é muito importante. No USM, como em outras provas, vi voluntários entusiasmados, cheios de garra e vontade de ajudar, sempre com simpatia e um sorriso para dar.

Todo o esforço desta malta tem um valor inestimável, por essa mesma razão a organização dá toda a atenção aos seus voluntários, indo ao encontro dos mesmo, apoiando e questionando sobre aquilo que eles acham que devia ser melhorado. Isto demonstra a abertura da organização em receber novas ideias por parte daqueles que permitem que isto aconteça.

Por outro lado é interessante ver a participação de muitos jovens e da comunidade local, que têm todo o orgulho em participar, aprender e ver a sua localidade a ser beneficiada por tudo o que este evento traz à sua comunidade.

De Santana para o Mundo

No fim do “SSR – Santana Sky Race”, prova que faz parte do Ultra Skymarathon Madeira, Romeu Gouveia, vencedor do SSR, respondia a diversas perguntas de um dos speakers, dizendo que o USM era uma prova magnífica, pela beleza e dureza dos trilhos, afirmando que “a prova tem todas as condições de receber o Campeonato do Mundo de Skyrunning”. Isto demonstra que os atletas gostam da mesma, por tudo o que ela oferece: beleza, trilhos técnicos e uma excelente organização.

Esta projecção mundial beneficia a modalidade, a Madeira, Santana e todos os atletas e amantes dos desportos de montanha em Portugal. Todo este evento é de extrema qualidade, e não digo isto por ser daqui da Madeira, mas sim por ver todo o trabalho esforço e dedicação da equipa que organiza o USM com tanto empenho. Há sempre pormenores a ajustar, mas tendo em conta a evolução da prova nos últimos anos, vemos que a organização está atenta e tenta mudar aquilo que esta menos bem, para que esta seja uma prova de referência, um estatuto que já atingiram.

USM 2018 – Top 3

Se as “Casas de Santana” são um postal de visita da ilha da Madeira, o concelho e a região podem ficar orgulhosos de ter mais um “cartão de visita” de nome USM – Ultra Skymarathon Madeira.

Estes dois dias de prova foram espetaculares. Ganhei novos conhecimentos, vi uma realidade diferente, algo que não sentimos e vemos quando somos participantes. Durante a prova, em conversa com uma colega que participou, ela disse uma frase que me ficou marcada e com a qual concordo: “todos os atletas deviam, pelo menos uma vez, ser voluntários ou estar na organização de uma prova”. Acreditem, vale a pena por toda a festa e experiência, mas principalmente para perceber os desafios e dificuldades que é organizar uma prova, seja ela de trail, skyrunning, btt, etc…

Deixo o aqui o meu agradecimento ao João Nunes e a todos os membros da sua equipa por me terem recebido durante os dois dias de prova.

Muitos parabéns e continuem o excelente trabalho!



Autor

O Runner Anónimo é um blog sobre corridas e histórias pessoais de um desportista amador que vive na ilha da Madeira.

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