“Eu ainda sou da altura” em que acompanhava de longe os nossos Portugueses em Mont Blanc. Seguia a sua progressão no gráfico de perfil da prova, e via a chegada a Chamonix de bandeira em punho, a atravessar um pórtico de sonhos e emoções. Decidi concorrer este ano porque me disseram que no primeiro ano as probabilidades de ser seleccionada seriam baixas, mas que assim teria mais hipóteses de conseguir para o ano. Portanto, era este o plano. Concorrer, não ficar, e fazer a estreia nos três dígitos aqui no MIUT. Pois, bem quis o destino, a vida ou os astros que assim não fosse, não fiz o MIUT (por uma boa razão) e fiquei seleccionada para a CCC. Estava tão confiante que não ficaria seleccionada que nem fui ver os resultados. Às 09h17 da manhã, nada mais, nada menos, o amigo Javier manda mensagem: “Não me digas que és a Sónia Silva que estava inscrita para a CCC” e eu respondi que sim, e Javier diz: “Caraças, Parabéns, Pumba” e pronto, foi assim que eu soube que tinha acabado de ser uma das 2,132 pessoas que estariam na partida da CCC 2019 em Mont Blanc.

Mas afinal o que é a CCC

A CCC é uma prova com 101 quilómetros de distância e 6100 metros de desnível positivo acumulado, tem a sua partida em Courmayeur, Itália, e passa por Champex, na Suíça, para terminar em Chamonix, em França, no sopé do Monte Branco, a maior montanha da Europa Ocidental. O nome, CCC, vem das três localidades que atravessa: Courmayeur – Champex – Chamonix.

A Aventura começa 

Sem eu me aperceber a aventura começou nesse mesmo dia, o objectivo da época estava traçado. Não há um segredo para a preparação de uma Ultra, são vários os factores que deverão trabalhar em conjunto, mas o plano, a estratégia, a preparação depende de cada pessoa, dos seus objectivos, capacidades, espírito de sacrifício e tempo. Mantive o que já fazia para as Ultras em geral, acrescentando semanas com mais carga e treinos específicos, privilegiando sempre a recuperação e o descanso. Contei com a ajuda preciosa do Paulo Margarido na organização do plano de treinos, e nas dicas preciosas para o mesmo. Em qualquer prova há a parte que controlas, que treinas, que preparas, foquei nessa, até porque a parte que não se controla ainda nem existe. A alimentação sou eu também que giro, e mantive o que já sabia que funcionava. “Se está bom não mexe”.

Viajei para França três dias antes da prova, a Carolina, o Filipe e o Nuno foram comigo nesta aventura. Eu tinha um professor na faculdade que dizia: “Rodeia-te de pessoas que te “vejam” e que não duvidem nunca do valor que tu sabes que tens”. Portanto, estes eram os tais, os que acreditavam tanto ou mais que eu neste sonho e nesta meta. 

O Dorsal de três dígitos

Emocionei-me já no levantamento do dorsal, filas de atletas de várias nacionalidades a carregar num cesto o seu material obrigatório e o sonho de ser finisher de uma prova do UTMB. E ali estava eu em Chamonix com o meu primeiro dorsal de três dígitos na mão, com o meu nome, a minha bandeira e de coração a transbordar de gratidão. Há poucos anos, eu nem me imaginava a correr e quando comecei sempre fui muito consciente com as distâncias, nunca quis dar saltos maior que as pernas, até porque as minhas são curtas, portanto, estar ali e correr numa prova do UTMB era um orgulho desmedido, por tudo o que isso representava. 

A partida

Chegamos a Courmayeur cedo, não haviam ainda muitos atletas, sentia-me muito calma e tranquila. Saltou-me logo á vista as imponentes montanhas com neve a emoldurar o pórtico da partida. Arrepiei-me ao ver de onde iria partir e comecei a ficar ansiosa ao me dirigir para a caixa de onde iria sair. Fiquei na primeira caixa, á frente estava a Ragna Debats, a Emelie Forsberg, a Inês Marques, o Luís Hernando e eu sentia-me gigante ali com dois metros de altura. A caixa começa a apertar, com atletas e o meu coração também, ansiosa já nem oiço o que dizem ao microfone. Ao meu lado tiram-se fotos e caem lágrimas de “várias nacionalidades”, vêem-se presas às bolsas a bandeira de cada atleta, uma ideia criativa da organização, onde se apela ao desportivismo. O ambiente é inexplicável, a ansiedade corta-se á faca, ajeito a mochila que nunca esteve tão pesada e fecho os olhos tentando absorver tudo. O discurso é muito emotivo e é dito em várias línguas e para todas as caixas de partida:

Sport brings people together, whatever your religion is, your social position, or your job is, for this and for everything…thank you so much.

Na contagem dos últimos 10 segundos, saltam-me as lágrimas e o coração sai disparado antes das pernas. Um último cumprimento e saio com uma vontade doida de correr. Damos uma volta ao centro da cidade, onde as ruas estão cheias de pessoas a aplaudir e a gritar, o ambiente é de festa e a adrenalina corre connosco lado a lado.

A primeira subida foi feita a bom passo, eram 9km com 1400m de desnível positivo, sentia-me bem, nem o peso a mais nas costas incomodava. As vistas eram de cortar a respiração. Estávamos a circundar o grande maciço de Mont Blanc, a imponência das vistas eram abismais e a imagem do serpentear dos atletas em romaria são inesquecíveis. Pareceu-me rápida a chegada ao Refúgio Bertone, com muitas pessoas no apoio e voluntários a ajudar, abasteci, saquei da sandes e saí. Até Arnouvaz, eram 26km, com trilhos para rolar e apreciar as vistas, ia tirando “fotografias” mentais que guardava automaticamente na memória e ia dizendo para mim própria “que sortuda que és, já viste bem onde estás”. Já na descida para Arnouvaz era possível ouvir o barulho, o ambiente é contagiante, muitas pessoas a gritar e a aplaudir. Não estava á espera de ver a doida da minha claque ali, pois só me podiam dar apoio externo aos 55km. Lá estavam eles a gritar por mim, e por todos, cada vez que os via eram como que boost energético que me empurrava para a frente. Já no abastecimento comi, estava tudo a funcionar bem, sentia-me bem, decido levar mais um flask extra com água porque a subida é dura e o calor já se fazia sentir.

Segue-se a subida ao Grand Col Ferret, trilho com muita pedra e muito seco, o Sol já ia bem alto e o calor apertava, as vistas, essas eram brutais, as agulhas cobertas de neve pareciam tão perto. No topo situa-se a fronteira entre a Itália e a Suíça, sinalizada por um balão gigante, “salto” literalmente para a Suíça e começo a descida para La Fouly, uma descida muito corrível, mas que decido fazer com calma e consciência de que ainda falta muita prova. Lembro-me de passar numa zona onde avistava perfeitamente a cordilheira de montanhas carregadas de neve e pelas suas encostas corriam linhas de água, que desaguavam no fundo do vale, o sol reflectia na neve e ela brilhava ainda mais. 

Chego a la Fouly bem-disposta, e deparo-me com um ecrã gigante, onde conforme vamos chegando e controlando, passam imagens de motivação gravadas pelos familiares e amigos dos que correm. Estou tão concentrada que nem vejo a minha mensagem. Tenho umas bolhas a começar a incomodar, assim como o calor que se faz sentir, molho-me para refrescar, reabasteço, como e sigo. 

 A descida para Praz de Fort é digna de filme, campos verdes a perder de vista, mas como se os tivessem recortado e casinhas de madeira tipicamente de montanha. Sempre que penso nas montanhas da Suíça, lembro-me dessa descida linda, eu só pensava na sorte que tinha em estar ali e mesmo a correr tentava guardar aquele “postal” no bolso. Já só pensava em Champex-Lac, onde tenho finalmente o primeiro abastecimento com assistência externa.

Na subida até Champex-Lac já se ouvia o barulho, o que me motiva a acelerar. Logo antes do abastecimento está um grupo de pessoas a apoiar e a chamar os atletas que trazem o nome bem visível no dorsal. E lá está a comitiva portuguesa, impossível não me alegrar, estão super animados, eles não sabem mas são como que uma lufada de ar fresco. Só pode entrar uma pessoa, entra a Carolina para dar apoio, e de repente, sinto-me em casa. As bolhas estão a atrapalhar nas descidas mas sinto-me bem, o abastecimento está cheio, o ambiente é frenético. Opto por mudar de t-shirt, empurro a sandes para o estômago, abraços, beijos e energia da boa e sigo. Tivemos muita sorte com o tempo, um dia de Sol lindo, mas muito quente, sigo e passo pelo bonito lago de Champex no meio da vila.

Começava agora a segunda parte da prova, e nem por isso a mais fácil, pelo contrário, eram três subidas e três descidas até Chamonix. Parece que ainda ouço o amigo Marco Caires, “Sónia cuidado com as três montanhas do fim”. A subida para La Giète foi a preferida das três subidas, foi nela que me despedi da luz do dia e assisti do melhor palco a um pôr-do-sol que faz valer qualquer subida. Com pedras gigantes e cursos de água para atravessar, subíamos num ziguezague até ao cume. A noite também não me assustava, os treinos nocturnos ajudaram e eu confesso que gosto de correr á noite, a concentração é outra, os sons são outros. Ao chegar ao topo vi a informação de que havia gado perto, para termos atenção, não estava á espera era que o gado fosse tão grande. De repente, vejo olhos a brilhar e ouço chocalhos e penso “uau, tem pessoas cá em cima a apoiar os atletas”, afinal eram os chocalhos gigantes das vacas alpinas. Quando começa a descida percebo que não estou a conseguir descer como queria, as bolhas atrapalham e decido mudar de sapatilhas no próximo abastecimento. Olho lá para baixo, para o vale e vejo as luzes de Trient á minha espera.

Chego a Trient um pouco desanimada, as descidas que são o que normalmente gosto mais não estão a correr bem. Entro no abastecimento, troco de sapatilhas, abasteço, como e saio, ouço o que preciso de ouvir, olho para eles e penso em mudar o chip, como tantas vezes treinamos quando algo corre mal. “Não é um drama Sónia, drama era não conseguires acabar”, decido fazer o melhor que consigo, com o que tenho. Já conto com 70 km nas pernas e Chamonix está cada vez mais perto. Foco na meta, na chegada e na vontade de fazer abaixo das 20horas.

Concentro-me na subida para Les Tseppes, outro trilho também este em ziguezague. Lá em cima há controlo com direito a fogueira, que aquecia os voluntários ou quem se atravesse a parar. A descida foi feita sempre com companhia, eu ia imaginando a minha mãe, família e amigos ao longe a acompanhar a progressão do meu “macaquinho” no gráfico da prova e isso era uma motivação gigante. Focava no abastecimento, aliás as Ultras faço-as de ponto a ponto, o objectivo é chegar sempre ao próximo abastecimento.

Chego a Vallorcine e assim sem me aperceber na descida atravessei outra vez a fronteira, já estou em França. Lá estão eles a gritar por mim, lá está a mana, com dois copos de canja. Abasteço e saio, sinto-me cansada e sei que estou a perder nas descidas mas estou ali com o melhor apoio do mundo a asneirar, super bem-disposta e tenho uma motivação gigante de atravessar aquela meta. A última vez que os vi, antes de Chamonix, foi épico “Sónia falta uma subida e uma descida” nunca mais me esqueço desta frase, até parecia fácil. “Agora falta uma subida de 400m e uma descida de 10km”, ao que eu respondi “agora é o que for”, mal sabia eu o que aí vinha. Despedimo-nos com a mesma promessa da partida “Até Chamonix”. Se há coisa que eles adivinharam, foi que eu teria pela frente um “Sky full of Stars”, mal sabia eu que para vê-las teria de subir o calvário. A subida foi avassaladora e interminável, o que começava por ser um trilho normal, passou rapidamente para uma prova de sky, onde eu e as minhas curtas pernas tivemos de agarrar a rocha e saltar pedregulhos gigantes. Encontro muitos atletas encostados a descansar, numa escalada sem fim. Olhava para baixo e via o ziguezague de luzes, chego ao que parecia ser o fim da subida e olho para cima e penso, são estrelas, mas espera, estão a andar, não eram estrelas afinal, eram luzes de frontais. Por cima de nós as cadeiras suspensas de um teleférico de pista de ski e no fim da subida finalmente a luz do abrigo do abastecimento. Estava com 90km, cansada claro, mas super feliz, já só pensava em Chamonix, e na meta. Olhei para o relógio, talvez ainda consiga abaixo das 20h, entro no abastecimento e saio logo, tenho líquidos, um gel e uma barra.

A minha Meta

Não me lembro de ter ficado tão triste com uma descida como naquele dia, era corrìvel, mas como os entendidos dizem, muito técnica para pernas com 90km. Muitas pedras, raízes e eu só pensava “cair aqui não, levanta os pés”. Estou a dar o meu melhor e a olhar para o relógio, as 19horas “fogem-me”, e percebo que não vai dar. Quando chego á estrada, emociono-me e acho que deixo de ver bem e de pensar direito, é um misto de alegria e de emoção, de cansaço, de luta, de 101km a idealizar a minha meta. A Carolina espera-me, e começo a chorar (claro) foi tão importante a ter ali, ela corre comigo lado a lado e eu já nem digo coisa com coisa. Vejo o Nuno e o Filipe que me dão a bandeira de Portugal e gritam “Bora miúda tá feito. Acelero e lá está ela…após 20h36m com 101kms nas pernas e um coração a bater a 101 á hora, de bandeira nas mãos e a chorar tipo Maria Madalena…eu atravesso a meta em Chamonix, às 05horas da manha de França, 04horas em Portugal. 

Acreditem ou não, a primeira coisa que sai assim que abraço a minha malta é um “não consegui” e penso que não me agrediram porque eu já estava muito cansada. Não consegui chegar na hora planeada e foi isso que veio no meio de tanta emoção, e é difícil, senão impossível de explicar emoções. Foram muitos meses de preparação, de privações, de expectativas, de dedicação, de planear tudo o que eu controlava. E eu quis controlar até o que não controlava, mas numa Ultra há tudo aquilo que não controlamos. Agora a esta distância, e depois de ouvir e ler outros relatos…tenho noção que a prova correu muito bem e que dentro das coisas que não controlava, até tive sorte ter sido só umas bolhas. Fui com tudo, e ficou lá tudo, em 101 km e isso enche-me de orgulho e faz-me sentir um furacãozinho. É justo sermos exigentes connosco próprios e competitivos com o nosso relógio, mas de igual forma sermos conscientes do nosso esforço aquando destes contratempos. Tudo pode acontecer numa Ultra, mas só tu e o teu corpo, escolhem o que fazer com isso. Afinal Chamonix deu me várias metas, a última foi o culminar de todas as outras que consegui superar…

101km | 6,100 D+ | 20h36 | 4ª Portuguesa | 78ª Geral F | 55ª Sénior F | 1ª Santaneira

Tenho obrigatoriamente (senão adeus apoio nos próximos empenos) de fazer um agradecimento especial á Carolina, ao Filipe e ao Nuno, e lhes dizer que “EU CONSEGUI” e agradecer-lhes por serem uns amigos do “cacete”, estou muito grata por cada km convosco. Ainda terão de inventar palavras para vos agradecer.

À Família, especialmente à minha Mãe ao Mano e ao Pai que só foram dormir depois de eu chegar, e amigos que ficaram a acompanhar a prova, a mandar mensagens de apoio antes, durante e depois. Humberto, o super fisio, Paulo Margarido, o “Mister” a todos o meu Muito obrigada…

Javier, amigo, obrigada pela oportunidade de passar este relato e de me fazer reviver de novo uma aventura única, que guardo como das mais bonitas de sempre.

Sónia Silva

Nota: Este texto é da responsabilidade do referido autor e aparece neste blogue como autor convidado.

Autor

O Runner Anónimo é um blog sobre corridas e histórias pessoais de um desportista amador que vive na ilha da Madeira.